Rigoletto
No próximo dia 17 a Royal Opera House abrirá o pano para mais um Rigoletto. Na pele do trágico corcunda estará o barítono grego Dimitri Platanias. Com ele, no elenco, o tenor Vittorio Grigolo e a soprano Ekaterina Siurina. O espetáculo terá transmissão ao vivo para vários países. A propósito, vale a pena revisitar essa ópera, conhecer ou relembrar o contexto histórico em que foi composta e as circustâncias e os fatos que inspiraram Giuseppe Verdi.
A HISTÓRIA
por Oscar Peixoto
La donna è móbile qual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero...
Os versos, cantados alegremente por um popular, assombraram o maestro:
afinal, pertenciam a uma ária de sua última ópera que – puxa! – ainda
não havia estreado! Era o início da noite de 11 de março de 1851, e o
maestro Giuseppe Verdi, dirigia-se para o teatro La Fenice, de Veneza, onde se daria a primeira apresentação de Rigoletto,
ópera que acabara de escrever. Entretanto, o povo da cidade já cantava
aquele trecho, em virtude, talvez, da boa memória de algum operário que,
enquanto montava os cenários, ouvira os ensaios dos cantores. Assim,
apesar da irritação de Verdi, a nova ópera já mostrava ter uma ária de
agrado popular. Destinada a se perpetuar até os dias de hoje.
Giuseppe Verdi estava trabalhando na música de La Maledizione (o primeiro nome projetado para Rigoletto)
quando a Direção Central da Ordem Pública exigiu que lhe fosse mandado o
libreto da ópera: as autoridades haviam sido informadas de que La Maledizione se baseava no drama Le Roi S’amuse, de Victor Hugo, peça “já deplorada na França e Alemanha pela libertinagem de que está cheia”.
E, como se isso não bastasse, era publicada uma nota de censura das
autoridades: “O governador militar Von Gorzkowsky lastima que poeta e
músico não tivessem sabido escolher outro campo para fazer emergir seus
talentos, ao invés de entrarem no caminho de uma repugnante
imoralidade”.

De fato, quando Victor Hugo decidiu apresentar a peça
Le Roi s’amuse
(O Rei se diverte) na capital francesa, também esbarrou na censura de
seu país. O enredo fazia alusão direta ao Rei Francisco I, um libertino
amante dos prazeres, e explorava o drama de seu bufão,
Triboulet, anão corcunda, totalmente dominado pelo complexo de sua deformação.
Triboulet
odeia o rei porque é rei, os nobres porque são nobres, e os homens em
geral porque não têm, como ele, uma corcova às costas. Seu principal
divertimento é fazer com que o rei e os cortesãos briguem continuamente
entre si, os mais fortes esmagando os mais fracos. Ao mesmo tempo,
cultiva a libertinagem do rei, introduzindo-o nas famílias dos
cortesãos, apontando-lhe uma esposa para seduzir, uma irmã para raptar,
uma filha para desonrar. Jamais a censura francesa poderia permitir a
apresentação desse monarca de forma tão pouco digna, principalmente em
1832, com o jacobinismo inicial da Revolução já totalmente neutralizado.

Assim,
antes mesmo de terminar o trabalho, Verdi tinha sua nova ópera proibida
tanto pela censura eclesiástica, como pela censura austríaca (a Áustria
dominava, então, o norte da Itália).
Verdi queixou-se ao libretista,
Francesco Maria Piave, porque
este garantira que não haveria problema com a censura, já que tinha
muitos amigos entre as autoridades. A única saída encontrada pelo poeta
foi preparar outro libreto, com novo título –
Duque de Vendôme - ,
e apelar para seus amigos do governo. Mas, novamente, não conseguiu a
aprovação da censura; esta queria a supressão de “passagens escabrosas”,
como a grotesca figura do bobo da corte, corcunda e feio, e a cena do
saco em que é colocado o cadáver da filha de Rigoletto. E mais: os
acontecimentos não poderiam se desenrolar na França.
A Direção Central da Ordem Pública mostrava-se preocupada com os
aspectos morais da ópera, que apresentava uma nobreza libertina e ociosa
e um bobo da corte escolhido por sua deformidade. Ao lado disso tudo, o
argumento se desenrolava em ambiente extremamente dramático, cuja
aspereza chocaria a sensibilidade dos espectadores. Por trás dessas
justificativas, entretanto, havia implicações políticas: a rigorosa
censura a tudo o que pudesse se relacionar com a decadência da
aristocracia austríaca e reforçar o movimento da unificação e
independência italianas.
Giuseppe Verdi provava mais uma vez, em sua carreira, que fazer ópera
não era só suportar os caprichos de cantores e instrumentistas, ou
entrentar um público hostil e empresários exigentes. O primeiro
obstáculo era a censura. E as lições ele fora recebendo desde a
apresentação de
I Lombardi alla Prima Crociata (1843), quando falou na “pátria, tão bela e perdida” e foi convidado a “visitar” a polícia. Em
Ernani
(1844), inspirada em texto de Victor Hugo, teve de mudar o título
várias vezes (A Honra Castelhana, O Bandido, Ruy Gómez da Silva) e a
ópera só foi representada graças às amizades do libretista Piave.
Unicamente na
Battaglia di Legnano é que Verdi teria um pouco
mais de liberdade, porque, em 1849, às vésperas da proclamação da
República romana, o ambiente já era mais favorável.
Assim, demorou algum tempo para que o compositor, o empresário Carlo
Marzari e o poeta Piave entrassem em acordo com as autoridades. A ópera
teria o título de
Rigoletto (que deriva da palavra francesa
rigolade
- brincadeira, gracejo, chalaça), a ação se desenvolveria em Mântua no
século XVI, o duque libertino seria chamado genericamente de Duque de
Mântua – para não se confundir com Francesco Gonzaga, que reinara na
região – e os nomes dos cortesãos deveriam ser outros. Verdi só não
aceitou mudar o aspecto físico do bufão: Rigoletto acabou ficando como
se havia planejado.
“E por que não?”, perguntava o compositor. “Acho belíssimo apresentar
esta personagem, externamente disforme e ridícula e, internamente,
apaixonada e cheia de amor. Escolhi-o exatamente por todas estas
qualidades e esses traços originais. Se forem tirados, não poderei mais
compor a música.”
Depois da estréia, como já estava ocorrendo com as demais óperas de
Verdi, também Rigoletto ganhou rapidamente os principais palcos do mundo
musical. Menos os franceses, porém. É que Victor Hugo, ao tomar
conhecimento da adaptação musical de sua peça, resolveu pedir,
judicialmente, uma indenização pelo uso do enredo sem a devida
autorização. A questão durou seis anos; finalmente, o empresário de
Verdi ganhou a causa, e em seguida montou a ópera em Paris. E Hugo,
apesar de nunca ter-se realmente reconciliado com Verdi, assistiu à
apresentação e gostou. Chegou mesmo a exclamar com entusiasmo, na cena
em que o Duque de Mântua corteja Madalena sob as vistas de Gilda e
Rigoletto: “Se eu pudesse fazer com que várias personagens falassem
simultaneamente, de tal forma que o público percebesse as palavras e os
sentimentos, também obteria efeito igual a este!”
A crítica da época foi bastante favorável a Verdi, apesar das inúmeras
publicações que repudiavam as “imoralidades” e as “grosserias” do tema.
Desde logo, os críticos perceberam a preocupação do compositor não só em
cuidar do tema, texto e música, como em fazer com que todos os
elementos da ópera se fundissem num só corpo, sem dar maior destaque à
forma ou ao conteúdo.
Verdi exigia costumeiramente frases curtas, concisas e essenciais, mas ao mesmo tempo ricas de pensamento e de imagens. Em
Ernani,
por exemplo, coloca em primeiro plano, sob luz ofuscante, poucas
figuras predominantes, capazes de exprimirem-se de maneira direta e
sintética. Mais tarde, em
I Due Foscari (1844), evidencia as
personagens e, ao mesmo tempo, despedaça a rígida separação de ária e
recitativo, procurando um discurso melódico contínuo para dar ritmo e
medida à cena. No
Rigoletto, o compositor atinge o ponto mais
alto da expressão dramática, rompendo de forma radical com o lirismo
romântico e aderindo totalmente ao melodrama.
O Romantismo, até então, apresentava as coisas de forma extremada e
intransigente: ou tudo bom, ou tudo mau, sem matizes ou gradações. Verdi
rompe o esquema e, com Rigoletto, introduz um elemento novo: a
personagem como algo complexo, bem próxima da vida real. Rigoletto, o
bufão, é deformado e mau, mas também é pai afetuoso e digno de piedade; o
duque é bonito por fora e corrupto por dentro; Gilda é bondosa e
virginal, mas é capaz de contrariar as ordens do pai e se deixar seduzir
pelo duque. O próprio Verdi afirma que “o duque tem um caráter nulo e
deve ser um libertino; não é, porém, repelente”.
É que o compositor não dava muita atenção à intelectualidade da época,
que queria ver na obra uma proximidade com o “belo”. E ouvia indiferente
os comentários sobre as “inconveniências obscenas” de seu trabalho. Sua
preocupação era bem diversa: acompanhava o desenvolvimento das novas
formas de vida impulsionadas pela Revolução Francesa. Assim, abandona o
velho público de sapatinhos e perucas e pensa nos novos espectadores: de
classe, exigências e idéias diferentes. A elegância literária cede
lugar à desordem dos sentimentos. Em
Rigoletto, não há
meios-termos: o espectador é levado, de repente, ao centro da ação. Se
quer um dito refinado, a platéia vai ser satisfeita, mas vai ter de
ouvir também as palavras venenosas do bufão.
Verdi já começava a ficar famoso, quando nova tragédia ocorreria,
acrescentando novos elementos à sua obra. Em menos de dois meses morrem o
filho, a filha e a esposa Margherita Barezzi (filha de um comerciante
de Busseto, que o incentivou nos estudos de música). Um Giorno di Regno,
que deveria ser uma ópera cômica, acabou por se tornar algo sem graça e
até triste, pois foi feita quando perdeu a família (1840).
Assim, as lembranças da infância, a participação nos anseios de
libertação do domínio estrangeiro e a profunda depressão pela tragédia
familiar forneceram os elementos essenciais para que a peça de Victor
Hugo ganhasse a simpatia do compositor italiano: permitia extravasar, ao
mesmo tempo, o desejo de atingir a nobreza austríaca dominante e a
necessidade de por em música sua dor.
Mas, em Verdi, alguns críticos vêem também um grotesco que teria origem
em sua vida interiorana: “Sou e serei sempre um campônio de Roncole”,
costumava dizer. E deu prova dessa afirmação quando, após o triunfal
êxito de Otello, em 1887, decidiu retirar-se para sua propriedade de
Santa Ágata (em companhia de Giuseppina Streponni, a segunda esposa),
dizendo que aquele fora seu último trabalho. A única preocupação, agora,
seria a atividade agrícola. Mas a promessa não durou muito: criaria
ainda Falstaff, trabalho de natureza cômica, baseado na obra de
Shakespeare, que havia sido condensada de forma muito hábil por Arrigo
Boito (libretista e também consagrado compositor). Embora interessado
pela qualidade do libreto, o compositor teria comentado com seus amigos:
“Divirto-me em musicá-lo, sem planos de qualquer espécie e sem mesmo
saber se o terminarei”.
Giuseppe Fortunino Francesco Verdi não só terminou a ópera como também
conseguiu atingir vivo o começo do século XX. Desde 1813, quando nasceu,
até 1901, assistiu a todo um processo de transformação política da
Europa e participou de forma ativa das modificações que levaram a música
a acompanhar os novos tempos.
Fontes: Opera Guide (Gerhart Von Westerman); Enciclopedia del Arte
Lirico: Sergio Sister; Kobbé's Complete Opera Book; dentre outras.
(publicado originalmente em http://blogln.ning.com/profiles/blogs/rigoletto-1)
Fernando Teixeira, baritono brasileiro - Rigoletto