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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O recital de Renée Fleming - impressões



                                                                        por Comba Marques Porto


Meu saudoso amigo Aloisio Teixeira diria que a soprano Renée Fleming foi econômica na escolha das peças de sua apresentação no Rio de Janeiro. Econômica no sentido de ter deixado de fora peças mais pujantes e, quiçá, mais complexas, notadamente as do repertório operístico. Conheço um pouco de técnica vocal e de partituras para soprano e acho que nada é fácil no terreno do canto lírico. Mesmo assim, sou levada a considerar que tivemos, sim, uma apresentação light e de certa forma até bem contida, se consideradas as obras de maior exigência para o registro de soprano lírico que fazem parte do repertório da cantora. Fleming privilegiou canções, aliás, de muito bom gosto, com as quais exibiu o feitiço de seu belo timbre e a segurança de sua exímia técnica. O pouco de ópera ficou para o fim e para o bis.
Da plateia, um admirador gritou: - “sublime!” - ao fim da execução das peças do americano Erich Korngold (1897-1957). Sim, sublime. E o mesmo eu diria quanto às canções de Claude Debussy que abriram o programa, com destaque para o piano de Gerald Martin Moore, por sinal, brilhante em todo o recital. Registre-se a graciosa interpretação das canções do francês Joseph Canteloube (1879-1957).
Com as três canções de Richard Strauss, Renée nos ofereceu o que é a sua praia, no dizer dos cariocas. Se Strauss, o Richard, não fosse incluído no programa, teríamos deixado de apreciar um dos pontos altos do seu repertório. Invoque-se a Marechala, do Cavaleiro da Rosa, uma de suas mais significativas interpretações.
Pena ela não ter cantado Mozart.
De Verdi, ela nos brindou com Otello - a canção do Salgueiro seguida da Ave Maria. Como na recente apresentação no MET, ela esteve esplêndida. Entretanto, não acho que este trecho do 4º ato do Otello seja a melhor escolha para uma apresentação isolada do contexto da ópera. Desdêmona conta a história de uma mulher que se chamava Bárbara e amava um homem que a abandonou... O tom lamentoso do andante marcado por Verdi para a canzone del Salce (partitura de Otello, ed. G. Ricordi, 1944, Milão) é subitamente cortado quando Desdêmona, apavorada, pressentindo a chegada de Otello, ouve um ruído. Emilia, sua acompanhante, a tranquiliza: “é o vento...”. Desdêmona conclui a narrativa e então ocorre o segundo e expressivo momento de tensão da cena: ela corre em direção a Emilia e dela se despede num abraço sentido de quem antevê o próprio fim. Este clima do desfecho da tragédia, tal como se anuncia na cena da canzone del salce só será percebido num recital por quem bem conhece o libreto.
Do programa não constou Puccini, mas teve La Bohème de Leoncavallo (estreia em 06 de maio de 1897, em Veneza) – uma ópera que quase ninguém conhece, ao contrário de l Pagliacci, perene sucesso do compositor. As duas árias levinhas apresentadas bem permitem entender porque La Bohème de Puccini entrou para a galeria dos melodramas mais queridos do público, ópera das mais encenadas em todo o mundo, desde sua estreia no Teatro Regio, em fevereiro de 1896, enquanto a obra de Leoncavallo, inspirada na mesma novela de Henri Murger sobre a vida de jovens boêmios da Paris da primeira metade do século 19, caiu no esquecimento.
No concerto de Fleming, Puccini só apareceu no bis, com a previsível ária “Oh, mio babbino caro”. Aos primeiros acordes do piano, veio da plateia um ohhh! Eis uma peça do agrado unânime do público, das divas em seus recitais e das principiantes em concursos de canto. O maestro Santiago Guerra, um dia, me disse: “querida, oh mio babbino caro... essa ária curtinha... as cantoras pensam que é fácil... Mas não é. Só devia ser incluída em recital para ser muitíssimo bem cantada, para que Puccini, poverino, de onde esteja, não fique zangado.” E a Fleming, como era de se esperar, cantou-a lindamente, fazendo jus à escrita sublime do compositor.
O Theatro Municipal não estava repleto, mas o público compenetrado recebeu a diva com raro e respeitoso silêncio somente rompido com aplausos ao fim de cada conjunto de árias ou canções de um mesmo compositor. Por sorte, pouca gente gripada, quer dizer, poucas tosses. No mais, um ou outro toque assassino de celular que, entretanto, não chegou a atingir os momentos de emissão cristalina dos belos pianíssimos da Fleming. A propósito, seja dito, em alguns momentos a audição das sutilezas sonoras das peças escolhidas restou prejudicada. Quem sabe, a acústica do TM não seja mais a mesma depois da reforma? Há que se investigar.  
Quando se vai ao teatro para assistir a um soprano do top da Fleming, já se chega pensando no bis. Momento de relaxamento do artista e do público, o bis pode ser o ponto alto do concerto. O bis da Fleming foi, em verdade, um necessário complemento ao programa. Das quatro peças apresentadas, três eram árias de óperas: a ária da Rusalka de Antonín Dvorák; a ária de Gianni Schicchi de Puccini; “Summertime”, da ópera Porgy and Bess de George Gershwin, e a pequena “Azulão” de Jayme Ovalle, letra de Manuel Bandeira – linda canção brasileira que, como se fosse a única, virou clichê de bis das cantoras estrangeiras que vêm parar em nossos costados.
O bom foi que das quatro peças ofertadas por Renée no bis, eu acertei três, sendo que “Summertime” foi mais um pedido telepaticamente atendido do que uma previsão. As outras eram barbadas. Só perdi para a ária de Rusalka. Bobeei, pois sabia que esta peça mora no coração da cantora, como ela explicou. Como tudo o que Renée Fleming cantou, a ária de Rusalka soou linda e inesquecível.  



"Summertime" - Moscou 2006

sábado, 3 de novembro de 2012

Renée Fleming no Theatro Municipal do Rio de Janeiro!



                                                                                     por Comba Marques Porto




Na tarde de sábado passado - 27/10/12  - o público de ópera do Brasil teve a chance de assistir a soprano Renée Fleming atuando no papel de Desdemona da ópera Otello, de Verdi, apresentada no MET e transmitida ao vivo em cinemas de várias cidades, inclusive no Rio de Janeiro. Já neste fim de semana, será possível assistir a diva americana ao vivo e em pessoa, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em recital único, acompanhada ao piano por Gerald Martin Moore.

Renée Fleming é uma grande artista. Está entre as mais lindas e mais preparadas vozes líricas do cenário mundial e, quiçá, da história da ópera – pelo menos desde quando inventada a reprodução de som e (depois) de imagem que nos permite conhecer vários interpretes e, assim, estabelecer comparações. Renée não é só a beleza e a perfeição de uma voz privilegiada. A par de ser uma mulher muito bonita, é também dotada para a arte do teatro, o que a qualifica como uma intérprete completa, feita de encomenda para a ópera. Sua Desdemona de sábado passado prova que sua voz mantém o mesmo frescor do início de sua carreira em meados dos anos 80 (a estreia no MET deu-se em 1991). Teremos, então, a oportunidade de assistir no Rio um grande soprano no auge de sua trajetória artística.

Até ontem, quando comecei a escrever esta matéria, véspera do recital, nada havia sido divulgado pela grande imprensa sobre a passagem de Renée Fleming pelo Rio de Janeiro. Apenas o tijolinho do programa na revista "rioshow"de O Globo de sexta-feira, 2/11.  Tal silêncio bem traduz a falta de interesse pela ópera por parte dos que hoje respondem pelas ações culturais no Rio de Janeiro. É incompreensível que a vinda ao Brasil de um soprano do quilate de Renée Fleming passe quase despercebida. É lamentável que não se tenha pensado em organizar um segundo recital de Renée para o grande público, a preços mais acessíveis. Algo que viesse representar uma boa oportunidade de incentivo à arte lírica e à diversidade de difusão musical e cultural. Talvez falte informação sobre o que  significa a soprano Renée Fleming no panorama mundial da música. 

Nós, cariocas, temos boas raízes de uma formação musical diversificada. Se temos o samba na origem de nossa musicalidade, também temos a modinha, o choro, os batuques de África, a música religiosa, a música de concerto e até mesmo a ópera que bombava na cidade já no século XVIII. A difusão da cultura demanda ações, interesse, sobretudo da parte de quem tem nas mãos a administração pública. Vale lembrar o bom resultado da iniciativa do maestro e compositor Heitor Villa Lobos, que nos anos 40/50, introduziu a disciplina do canto orfeônico nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro, então capital da república. Era a boa música ao alcance de todos, pois a experiência foi também assimilada pelas escolas particulares. Infelizmente, em larga escala, isto se perdeu. E assim lá estão os jovens de hoje  entregues à mesmice de algo que chamam "música" muito rico em barulho e pobre em inteligência e musicalidade. Hermeto Pascoal tira música de tudo o que passa por suas mãos. E tudo o que faz é música da melhor qualidade. Não há de minha parte qualquer preconceito quanto a gênero musical e inventividade musical. O ruído de um martelo a bater pode virar música, sim. Mas haja dom, conhecimento de música e inteligência para extrair de um simples objeto tal efeito! 

O mais importante na educação e na formação cultural e musical de um povo é a diversidade. É preciso, pois, que os variados gêneros artísticos sejam levados ao conhecimento de todos.  Só assim será possível escolher, experimentar algo diferente e criar música de boa qualidade, independentemente de estilo, gênero, ritmo, instrumentos utilizados, etc. 

Renée Fleming canta somente no Rio. Para a programação cultural da cidade isto não é pouco. E o que dizer, então, para a história do Theatro Municipal, onde ela se apresenta?!   Penso que os teatros, como as pessoas, constroem as faces boas de suas identidades a partir das vivências mais enriquecedoras. A literatura, a boa música, a boa encenação teatral, em suma, o evento artístico de boa qualidade fortalece tanto a alma das pessoas como a alma dos teatros. O nosso Municipal, por exemplo, é um espaço rico em vivências culturais diversificadas e de grande valor artístico, especialmente no campo da música, da ópera e do teatro. 



É, pois, de se agradecer à Renée Fleming pela escolha de sua apresentação na cidade do Rio de Janeiro. Seu recital, com certeza, trará ao palco do Theatro Municipal um glorioso momento de conexão com sua verdadeira essência, com o acervo imemorial inscrito em sua bela estrutura arquitetônica, gravado no solo onde pisaram e ainda podem pisar grandes artistas, acolhido nas sombras da coxia e nos perfumes dos camarins; presente na memória e na emoção de um público que se renova mas não perde a vinculação com a arte. Não sei se um pouco da história do nosso Theatro Municipal foi contado à querida soprano Renée Fleming. Se foi, ela há de deixar o Rio com a sensação de sair daqui fortalecida. Conto as horas para te ver e te ouvir, Renée. Viva a música, viva a ópera, sempre!