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sábado, 26 de setembro de 2015

O Municipal de São Paulo desaponta o público.



Foto de Desirée Furoni / Fundação Theatro Municipal de São Paulo


por Henrique Marques Porto

Depois de uma muito elogiada montagem da “Thaïs”, de Jules Massenet, o Municipal de São Paulo provocou frustração e desânimo em seu público. "A Fundação Theatro Municipal de São Paulo comunica alterações na programação do último trimestre de 2015 e em 2016. A apesentação da companhia teatral La Fura Dels Baus, prevista para novembro de 2015, foi remanejada para o próximo ano, e a ópera Cosi Fan Tutte, que encerraria a atual temporada lírica foi cancelada" -explica em nota a direção do Theatro Municipal.

A previsão, por ora, é que sejam montadas apenas três óperas em 2016. O distinto público, que não é bobo, se pergunta, com a pulga atrás da orelha: como pode acontecer isso a um teatro cujo orçamento para 2015 encostou na casa dos 100 milhões de reais? A nota da direção do teatro não informa sobre detalhes financeiros. Limita-se a apontar um “contexto de adversidades” (assim, no plural), sem indicar um exemplo qualquer. Devia informar melhor. Ela e a OS (Organização Social) Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, que administra a casa, que foi terceirizada.  E há muito o que explicar.

Em junho deste ano foi assinado um aditamento ao contrato de serviços entre o Theatro Municipal de São Paulo e o Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, a quem cabe, por contrato, a captação de recursos no setor privado para complementar os 99 milhões de reais destinados ao TMSP pela Prefeitura. Pelo jeito, a OS não foi capaz de honrar o contrato. Ou vice e versa, ou versa vice. Que não se ponha a culpa na alta do dólar ou outra encrenca na área econômica. Isso ofenderá os leitores mais informados.    

Alguma lição se pode tirar desse desacerto em São Paulo, e que valerá para outros teatros. O problema não é circunstancial. É estrutural. Tratá-lo como acidente de percurso em função desta ou daquela conjuntura seria irresponsabilidade. Ainda assim, o público torce para que o teatro dirigido por John Neschling e José Luiz Herencia se recupere e se junte aos esforços iniciais de João Guilherme Ripper, que tenta tirar do buraco o Municipal do Rio de Janeiro, dispondo de modestíssimo orçamento, sequer comparável com o do congênere de São Paulo.   

Nenhum teatro de ópera sério -grande, médio ou pequeno- pode sobreviver sem coro e orquestra, e sem elenco e repertório próprios. Veja-se o caso do MET. Até hoje remonta a "Aida" de 1986, estreada no Rio de Janeiro quando Fernando Bicudo dirigia a Divisão de Ópera do TM. Nomes como Jonas Kaufmann, Anna Netrebko e vários outros são certos em suas temporadas. Assinam contratos anuais para se apresentar em tais ou quais óperas, e fazem o mesmo com outros teatros. O MET e outras grandes casas têm, assim, um elenco definido por várias temporadas.

Como as montagens são próprias (raramente importadas ou em parceria com outros teatros), elas passam a compor o acervo artístico do teatro. Primeiro é preciso definir o elenco, saber quem poderá ser contratado. Depois define-se o repertório. Atualmente se faz o contrário. No Rio e em São Paulo era assim até início dos anos setenta. A partir daí quem tem mandado nas temporadas são os empresários. O que significa dizer que estamos trabalhando como no final do século 19 e primeiras décadas do século vinte. Tudo vinha de fora, nada era feito ou ficava aqui.  

Os diretores dos nossos teatros definem arbitrariamente os títulos que desejam montar e saem esbaforidos em busca de solistas. Ficam, assim, nas mãos e nos bolsos dos empresários. Por incúria ou por interesse. Não é raro um empresário impor ao público brasileiro um tenor que soa como um bode ou um soprano como o ranger de uma porta. Tem prevalecido o interesse comercial rasteiro contra o interesse artístico. As exceções são raras.

O Brasil tem excelentes cantores -atuando aqui e no exterior- e, portanto, pode formar bons elencos. Que os teatros contratem esses cantores, ora bolas! Idem em relação a cenógrafos e diretores de cena. Boa formação, conhecimento e tradição não nos faltam. Nos períodos em que valorizamos os artistas nacionais o problema era menor. Quando não havia recursos para contratar solistas renomados resolvíamos com a chamada “prata da casa”. Às vezes com resultados surpreendentes.

Somente adotando esse tipo de política poderemos criar repertório, recuperar o repertório que perdemos e construir verdadeiros teatros de ópera. Se existirem recursos para contratar um ou dois grandes nomes, ótimo! O resto nós podemos fazer. A “Thaïs” foi linda, mas já bateu asas sem deixar nada aqui, além das boas lembranças para os que viram.

Com os pés no chão, sem pensar na megalomania de produções caríssimas, Rio e São Paulo podem organizar temporadas líricas de qualidade e que não sejam efêmeras, que passem como o vento, como passou por São Paulo. O desafio que está posto é investir em montagens próprias e torná-las parte do nosso patrimônio artístico. Os diretores dos teatros sabem disso. E seria inconcebível se não soubessem. Não fazem porque não querem.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A reconstrução do Theatro Municipal do Rio de Janeiro




Algumas propostas


Por Henrique Marques Porto

O objetivo desse texto é indicar um conjunto de ações e iniciativas mínimas para a reconstrução do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Longe de pretender ser definitivo, o texto tem a intenção de abrir ou estimular o debate sobre o tema. Dispensável fazer o balanço dos últimos sete/oito anos e enumerar os erros, os desmandos e indicar exemplos da péssima administração do TMRJ no Governo em fim de mandato, e que entrará para história como a pior gestão desde sua fundação em 1909.

A palavra “reconstrução” é aqui usada com muito critério e explica, por si, a natureza do trabalho que deve ser feito no Municipal em função do que aconteceu nos últimos anos, e que pode ser definido numa palavra: desmonte. Essa foi a tarefa a que se propuseram a Secretária de Cultura, Adriana Rattes, e a presidente da Fundação Theatro Municipal, Carla Camaruti, ambas produtoras e/ou empresárias  do setor audiovisual. As duas senhoras tinham uma missão: terceirizar o Municipal. A própria ex-atriz Carla Camurati confirmou o objetivo em recente entrevista à revista Valor: "No início da gestão, em 2008, a gente tentou. A Adriana Rattes sabia que era a primeira coisa que ela deveria fazer como secretária de Cultura".

Quebraram as caras. Os funcionários do teatro, com apoio do meio musical e do público impediram a aventura que beneficiaria apenas a pirataria que ronda o belo prédio da Cinelândia.

Por trás da evidente incompetência de quem vem gerindo o Municipal nos últimos anos estão o autoritarismo e as decisões arbitrárias. E um certo espírito vingativo em relação aos funcionários do TMRJ. O mandonismo resulta sempre em incompetência, além de facilitar os mal feitos de toda espécie e o alcance de objetivos muitas vezes desonestos, como o favorecimento de pessoas, empresários, produtoras e pequenos grupos.  

A tarefa agora é tentar, num esforço coletivo, reconstruir essa importante instituição pública que é a Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

A Instituição

A Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro (FTM/RJ) foi instituída pela Lei 1242 de 3 de dezembro de 1987:

Parágrafo único - A FTM/RJ terá por finalidade promover, incentivar e executar atividades culturais, especificamente nos campos da música, dança e representações cênicas, no âmbito de atuação do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, conferindo-lhes flexibilidade e autonomia.
Art. 2º - A FTM/RJ será supervisionada pela Secretaria de Estado de Cultura, terá personalidade jurídica de direito privado, sede e foro na Capital do Estado e duração indeterminada, regendo-se por esta Lei e pelos Estatutos que forem aprovados por Decreto do Poder Executivo.

O objetivo da Lei é claro. A intenção do legislador ao transformar o TMRJ em Fundação, com “personalidade jurídica de direito privado”, foi dar ao teatro autonomia administrativa e financeira, gestão mais ágil e maior capacidade de captar recursos no setor privado, além daqueles previstos no Orçamento Estadual.

A FTM/RJ não vem cumprindo a própria Lei que a criou! E tem sido assim há quase três décadas. Institucionalmente está absolutamente desorganizada, a começar por seus órgãos diretores. O TMRJ sequer tem um Vice-Presidente! Tem sido praxe dos governantes limitar-se a indicar um nome para a presidência da FTM, sem consultar os funcionários do teatro e o meio artístico, e dar de ombros para o resto. 

Assim, o Theatro Municipal costuma ser lembrado mais pela imponência do prédio histórico e menos por sua importância para a cultura do Rio e do Brasil.

Na verdade, o Municipal foi reduzido a mais uma entre tantas unidades da Secretaria de Cultura, como se não fosse a instituição diferenciada que é -um dos maiores, mais belos e mais bem equipados teatros da América do Sul, único equipamento do Rio de Janeiro adequado para encenações de óperas e balés. Teatros menores foram reformados para outras finalidades ou demolidos.  

A reconstrução

Reorganização administrativa da Fundação.

a) Eleição dos Órgãos de Direção da Fundação: Presidência e Vice-Presidência, Conselhos etc. No caso das Fundações o presidente não é a autoridade máxima na tomada de decisões. Esse papel cabe a um Conselho –Diretor ou Curador.  Esse órgão, que tem poder decisório, é o responsável pelas decisões finais. A Presidência cumpre.  

b) Atualização dos Estatutos e Regimento Interno da FTM. Na verdade, não se sabe ao certo se existem Estatutos e Regimento. Ao longo dos anos ninguém deu bola para isso. Desorganizada, a Fundação Theatro Municipal está com as portas escancaradas para todo tipo de piratas.

1) Recriação da Orquestra Jovem (formação de músicos e prática de conjunto). A Orquestra Jovem foi uma das melhores experiências vividas pelo Municipal. Foi extinta nos anos 70. Seu último Diretor foi o Maestro Nelson Nilo Hack. Seus discípulos ainda estão aí nas estantes das nossas orquestras.   

2) Criação, ou recriação, da Escola de Canto e Canto Coral (formação de futuros coristas e solistas). O TMRJ já contou com a “Escola de Canto Carmem Gomes”. Foi transferida do Municipal para a Escola de Música Villa-Lobos e lá perdeu sua função.

3) Criação da Divisão de Cenografia, Artes Cênicas e Figurinos. Nos anos 50 e 60 o TM tinha um setor de cenografia, dirigido por Mário Conde. Dele saíram nomes como Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Joãozinho Trinta (este era do corpo de baile e depois se projetou elaborando figurinos).  

4) Redução no curto prazo da enorme capacidade ociosa do TMRJ. Transformado pela atual gestão em casa de aluguel para convescotes variados o TM deve voltar a se dedicar à atividade artística como manda a Lei que criou a Fundação: promover, incentivar e executar atividades culturais, especificamente nos campos da música, dança e representações cênicas”.

5) Eleição direta do Presidente da Fundação Theatro Municipal, por Lista Tríplice, a exemplo do que ocorre nas Universidades Públicas e em fundações federais. Essa medida simples protegeria o Municipal contra as nomeações políticas, que geralmente atendem aos interesses do baixo clero e beneficiam empresas e pequenos grupos de pessoas. 

6) Transparência nas contas do TMRJ, uma verdadeira "caixa preta" recheada de contratos marotos. O TM é mantido por dinheiro público e tem a obrigação de prestar contas ao público. 

Atividades

1) Recriação da Temporada Lírica Nacional, resgatando a “Lei Ary Barroso”, Decreto-Lei 248 de 1948, com o objetivo de revelar novos talentos e dar chances aos artistas jovens –cantores, maestros, bailarinos, músicos, cenógrafos, figurinistas e técnicos.

2) Organização anual de uma Temporada de Concertos com a Orquestra do TMRJ. É absurdo um teatro manter uma orquestra sinfônica de qualidade que vem atuando apenas no fosso, em óperas, balés e eventos isolados. Isso faz mal aos músicos, ao público e à cultura do Rio.

3) Organização de uma Temporada de Balé que corresponda ao nível de qualidade do Corpo de Baile do Municipal, com a renovação da programação e incentivo à produção de coreografias próprias. Desde o início dos anos 80 o TM vem apresentando anualmente a mesma montagem de “O Quebra Nozes”! Um exagero absurdo que beneficia apenas uma ilustre empresária da dança.

4) Aproveitar espaços como o Foyer do Theatro para a organização de programação dedicada à Música de Câmara a preços populares. Público não faltará. Isso já foi feito no passado com muito sucesso. Sem prejuízo da inclusão desse repertório nas programações de concerto para o palco. Os próprios músicos da Orquestra Sinfônica do TM seriam incentivados a formar duos, trios, quartetos etc.

5) Organizar estratégias, com apoio profissional, de captação de recursos no setor privado para complementar o financiamento da área artística. O TMRJ jamais fez isso. Sequer empenhou-se junto ao próprio Governo para conseguir uma posição melhor no Orçamento Estadual.  

Recursos financeiros

Comparativamente a outros teatros do mesmo porte no Brasil, o Municipal do Rio só tem receita menor do que o Municipal de São Paulo. Por descaso do atual Governo, o que não é um privilégio do setor cultural, e por absoluta inoperância (incompetência seria o termo mais adequado) dos gestores do TMRJ. Mas as comparações com o TMSP são estapafúrdias e revelam grande dose de ignorância misturada com ma fé. Na verdade, nos últimos anos, a diferença entre os orçamentos de um teatro e outro não foi tão grande assim. E houve ano em que o Municipal de São Paulo trabalhou com orçamento até menor do que o congênere do Rio. Nem por isso o público de São Paulo ficou privado de óperas e concertos. A diferença é que o teatro de São Paulo tem contado com gente séria e comprometida com a música. John Neschiling, que comanda atualmente o TMSP, não é uma unanimidade entre os músicos e tem consciência disso. Mas ele é competente e não sai por aí fazendo asneiras. 

Como alertado no início, não tive a pretensão de esgotar o assunto. Também não tenho a arrogância de achar que essas propostas ou ideias sejam as melhores ou as mais adequadas. Tenho apenas duas certezas: 1) é preciso debater com seriedade e de forma organizada o futuro próximo do Theatro Municipal; e 2) Os funcionários do TMRJ e o meio musical do Rio de Janeiro devem ser os protagonistas da reconstrução do Municipal. Apoio e participação do público não faltarão.

Daqui a três meses o Rio elegerá um novo Governador. Da mesma forma como tantos outros segmentos sociais, os músicos e os amantes da música precisam se preparar e estar dispostos a influenciar nas decisões do futuro governante.