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sábado, 10 de novembro de 2012

O desmonte do Theatro Municipal do Rio de Janeiro



por Henrique Marques Porto

Como perguntar não ofende, lá vai a pergunta, bem direta: por qual misteriosa razão a ex-atriz e diretora de cinema Carla Camurati ainda não foi demitida da direção da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro? A pergunta vai para o governador do Estado, Sérgio Cabral, um político arguto e bem sucedido que não terá dificuldades em respondê-la. Razões para a demissão existem de sobra. A presença de Carla Camurati à frente do Theatro Municipal só se justificaria por razões que nada têm a ver com a ópera, o concerto e o balé.

Que Carla Camurati não possui vínculos com essas áreas -exceto pela direção cênica de quatro ou cinco óperas- até as pedras da Cinelândia sabem. Ligada, profissional e comercialmente, ao setor de audiovisual –coincidentemente a mesma origem da Secretária de Cultura, Adriana Rattes- a diretora de “Carlota Joaquina” entende pouco ou quase nada dos gêneros que são prioritários no TM. Repita-se com ênfase: a ópera, o concerto e o balé.  

A paciência do público carioca chegou ao seu limite. Carla Camurati está no cargo desde 2007. Ao longo desses anos, o Theatro Municipal conheceu o período mais medíocre e inoperante de toda a sua centenária existência. Basta fazer uma consulta rápida sobre a programação do teatro no período para confirmar. 

O imponente e dispendioso prédio histórico foi reduzido à uma casa de aluguel. Não é mais propriamente um teatro, mas sim um espaço luxuoso alugado para toda sorte de eventos. É um teatro onde quem menos trabalha são os bilheteiros. E teatro onde bilheteiro trabalha pouco é uma casa com grandes problemas.

Mais grave, no entanto, é a contínua e rápida degradação dos corpos estáveis do Theatro Municipal –a Orquestra, o Coro e o Corpo de Baile. 

Os cariocas estão assistindo ao desmonte e à degradação do Theatro Municipal! 

Será intencional? Será uma espécie de retaliação contra a instituição que resistiu a ser terceirizada e entregue à administração de alguma “organização social”, como acontece com a toda a área cultural do Rio na gestão Sérgio Cabral? 

As referências ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro como um belo prédio com história centenária, por onde passaram grandes artistas, soam como expressão vazia e sem sentido nos discursos dos seus administradores e nos textos laudatórios de alguns ingênuos. O TM não existe apenas para enfeitar a paisagem do centro do Rio de Janeiro e servir de pano de fundo para as fotos dos turistas.  

O Theatro Municipal não é apenas um prédio luxuoso com ouros a brilhar na fachada. É um centro de produção de cultura! É o mais importante centro de produção musical do Estado do Rio de Janeiro! É este bem cultural -que pertence ao povo que o sustenta com seus impostos- que está sendo desmontado e reduzido a uma fachada iluminada. Salvá-lo do desmonte final está se transformando num dever para todos aqueles que amam a música e a querem viva e pujante no Rio de Janeiro. 

A cultura é herança e transformação. Um conceito que parece escapar ao entendimento dos atuais administradores culturais do Estado do Rio.  O Theatro Municipal possui uma riquíssima herança, mas perdeu o fio de sua história e não sabe como transformar-se. Esse é o desafio a ser enfrentado. Infelizmente, Carla Camurati já demonstrou que sua nomeação foi um equívoco lamentável. O cargo exige um outro perfil, qual seja um nome ligado ao meio musical e com reconhecida experiência na área. Nomes não faltam e é dispensável citá-los.  

Durante muitas décadas a produção de ópera na cidade não esteve limitada ao Theatro Municipal. Temporadas curtas e produções independentes aconteciam em outros espaços –em teatros menores e até em clubes sociais do subúrbio carioca- paralelamente às temporadas líricas nacionais e internacionais organizadas pelo TM. Mas esses empreendimentos só eram exequíveis porque contavam com a participação e o apoio do Municipal, que cedia a orquestra, o coro, parte dos cenários e figurinos, além de maestros, ensaiadores, diretores de cena e técnicos. Quer dizer, o TM cumpria com sua função de centro produtor de cultura. Era bem mais do que uma casa de espetáculos isolada, preocupada apenas com as próprias produções.  

O público –repita-se- já perdeu a paciência. E é inútil continuar a usar como argumento-desculpa a reforma geral feita no TM. Isso já é passado, e já lá se vão mais de dois anos da reinauguração. Até quando vão continuar os festejos? A dita reforma, aliás, deixou um rasto de dúvidas e muitos problemas, como a evidente danificação da acústica do teatro, que era das melhores do Brasil, e o sumiço de algumas peças, como aconteceu em reformas anteriores. Mas esse já é assunto para os órgãos de fiscalização do Estado.

Por fim são inexplicáveis as presenças do maestro Silvio Viegas, acumulando a direção artística do teatro e o comando da orquestra da casa, e de sua assessora, a compositora Cirlei de Holanda. Dois nomes respeitados no cenário musical brasileiro que estão comprometendo suas biografias ao demonstrar inapetência para os cargos que ocupam, a começar pela flagrante dificuldade de organizar uma agenda, mínima que seja, de concertos para a orquestra do teatro –um conjunto desfalcado, entregue à própria sorte e com o futuro próximo ameaçado pela falta de previsão e planejamento. A situação não é muito diferente nos casos do Coro e do Balé. 

A lenta agonia do Theatro Municipal começa a ser assunto nas redes sociais. Cada vez mais pessoas estão se interessando, se informando e se manifestando sobre o tema. Sinal dos tempos, que carrega uma advertência: a pressão do público e do meio musical do Rio de Janeiro pode fazer a diferença e apressar as mudanças necessárias. 

Sem planejamento, política administrativa definida e programação própria, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro caminha para uma crise sem precedentes, de funestas consequências para a cultura da cidade e do Estado do Rio. O mínimo que se espera é que o meio musical carioca saiba reagir com determinação e de forma organizada. Mais uma vez o destino do maior teatro do Rio depende dos artistas e do público. 

"Va Pensiero" - Ricardo Mutti

sábado, 3 de novembro de 2012

Renée Fleming no Theatro Municipal do Rio de Janeiro!



                                                                                     por Comba Marques Porto




Na tarde de sábado passado - 27/10/12  - o público de ópera do Brasil teve a chance de assistir a soprano Renée Fleming atuando no papel de Desdemona da ópera Otello, de Verdi, apresentada no MET e transmitida ao vivo em cinemas de várias cidades, inclusive no Rio de Janeiro. Já neste fim de semana, será possível assistir a diva americana ao vivo e em pessoa, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em recital único, acompanhada ao piano por Gerald Martin Moore.

Renée Fleming é uma grande artista. Está entre as mais lindas e mais preparadas vozes líricas do cenário mundial e, quiçá, da história da ópera – pelo menos desde quando inventada a reprodução de som e (depois) de imagem que nos permite conhecer vários interpretes e, assim, estabelecer comparações. Renée não é só a beleza e a perfeição de uma voz privilegiada. A par de ser uma mulher muito bonita, é também dotada para a arte do teatro, o que a qualifica como uma intérprete completa, feita de encomenda para a ópera. Sua Desdemona de sábado passado prova que sua voz mantém o mesmo frescor do início de sua carreira em meados dos anos 80 (a estreia no MET deu-se em 1991). Teremos, então, a oportunidade de assistir no Rio um grande soprano no auge de sua trajetória artística.

Até ontem, quando comecei a escrever esta matéria, véspera do recital, nada havia sido divulgado pela grande imprensa sobre a passagem de Renée Fleming pelo Rio de Janeiro. Apenas o tijolinho do programa na revista "rioshow"de O Globo de sexta-feira, 2/11.  Tal silêncio bem traduz a falta de interesse pela ópera por parte dos que hoje respondem pelas ações culturais no Rio de Janeiro. É incompreensível que a vinda ao Brasil de um soprano do quilate de Renée Fleming passe quase despercebida. É lamentável que não se tenha pensado em organizar um segundo recital de Renée para o grande público, a preços mais acessíveis. Algo que viesse representar uma boa oportunidade de incentivo à arte lírica e à diversidade de difusão musical e cultural. Talvez falte informação sobre o que  significa a soprano Renée Fleming no panorama mundial da música. 

Nós, cariocas, temos boas raízes de uma formação musical diversificada. Se temos o samba na origem de nossa musicalidade, também temos a modinha, o choro, os batuques de África, a música religiosa, a música de concerto e até mesmo a ópera que bombava na cidade já no século XVIII. A difusão da cultura demanda ações, interesse, sobretudo da parte de quem tem nas mãos a administração pública. Vale lembrar o bom resultado da iniciativa do maestro e compositor Heitor Villa Lobos, que nos anos 40/50, introduziu a disciplina do canto orfeônico nas escolas da rede pública do Rio de Janeiro, então capital da república. Era a boa música ao alcance de todos, pois a experiência foi também assimilada pelas escolas particulares. Infelizmente, em larga escala, isto se perdeu. E assim lá estão os jovens de hoje  entregues à mesmice de algo que chamam "música" muito rico em barulho e pobre em inteligência e musicalidade. Hermeto Pascoal tira música de tudo o que passa por suas mãos. E tudo o que faz é música da melhor qualidade. Não há de minha parte qualquer preconceito quanto a gênero musical e inventividade musical. O ruído de um martelo a bater pode virar música, sim. Mas haja dom, conhecimento de música e inteligência para extrair de um simples objeto tal efeito! 

O mais importante na educação e na formação cultural e musical de um povo é a diversidade. É preciso, pois, que os variados gêneros artísticos sejam levados ao conhecimento de todos.  Só assim será possível escolher, experimentar algo diferente e criar música de boa qualidade, independentemente de estilo, gênero, ritmo, instrumentos utilizados, etc. 

Renée Fleming canta somente no Rio. Para a programação cultural da cidade isto não é pouco. E o que dizer, então, para a história do Theatro Municipal, onde ela se apresenta?!   Penso que os teatros, como as pessoas, constroem as faces boas de suas identidades a partir das vivências mais enriquecedoras. A literatura, a boa música, a boa encenação teatral, em suma, o evento artístico de boa qualidade fortalece tanto a alma das pessoas como a alma dos teatros. O nosso Municipal, por exemplo, é um espaço rico em vivências culturais diversificadas e de grande valor artístico, especialmente no campo da música, da ópera e do teatro. 



É, pois, de se agradecer à Renée Fleming pela escolha de sua apresentação na cidade do Rio de Janeiro. Seu recital, com certeza, trará ao palco do Theatro Municipal um glorioso momento de conexão com sua verdadeira essência, com o acervo imemorial inscrito em sua bela estrutura arquitetônica, gravado no solo onde pisaram e ainda podem pisar grandes artistas, acolhido nas sombras da coxia e nos perfumes dos camarins; presente na memória e na emoção de um público que se renova mas não perde a vinculação com a arte. Não sei se um pouco da história do nosso Theatro Municipal foi contado à querida soprano Renée Fleming. Se foi, ela há de deixar o Rio com a sensação de sair daqui fortalecida. Conto as horas para te ver e te ouvir, Renée. Viva a música, viva a ópera, sempre!