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quarta-feira, 19 de março de 2014

Um “Werther” arrebatador



Jonas Kaufmann. "Werther" no Metropolitan Opera House.

por Comba Marques Porto

Históricos tenores celebrizaram “Werther”, de Jules Massenet (1842-1912), pelo mundo afora a partir da estreia desta ópera em Viena em 1892, quando cantada em alemão. No Rio de Janeiro a primeira apresentação deu-se em 1905 no Teatro Lírico (montado em 1857, na rua da Guarda Velha, atual Treze de Maio, demolido em 1933). Após a inauguração do Municipal em 1909, “Werther” esteve com frequência nas temporadas líricas programadas até os anos 70/90. Destaco Armando de Assis Pacheco (1914-2006) como dos melhores intérpretes do papel de Werther entre os cantores brasileiros. Muito sucesso ele fez por aqui com sua voz típica de tenor lírico dotada também de força e volume, atributos necessários, ao meu ver, aos papéis dramáticos como o de Werther. 

Passo em revista as várias montagens de “Werther” que assisti no Rio e mais as gravações ouvidas por toda a vida, desde o tempo do rádio quando ainda pequena aprendi a gostar de ópera com meu pai, para concluir que “Werther” é uma das óperas de que mais gosto. Por isso, em boa hora decidi enfrentar o frio novaiorquino deste mês de março para assistir a montagem de “Werther” do Metropolitan Opera House. Na regência o maestro francês Alain Altinoglu de apenas trinta e cinco anos e muita competência. Direção de cena de Richard Eyre, diretor de teatro e cinema que, em 1994, assinou a montagem de "La Traviata" do Royal Opera House, sob regência do maestro Georgi Solti (1912-1997), com a soprano Angela Gheorguiu no papel de Violeta. Integraram o elenco deste “Werther” em papéis principais: o tenor Jonas Kaufmann como Werther, as sopranos Sophie Koch como Charlotte e Lisete Oropesa como Sophie e o barítono David Bizic como Albert. Foi uma encenação de fato encantadora. Viu-se toda a moderna tecnologia de palco do MET a serviço de uma concepção em respeito à estética da obra. Justos aplausos para figurinos e cenários incrementados por recursos visuais em projeções, sob a responsabilidade de Rob Howell. 

Jules Massenet (1842-1912) amava a novela de Johann Wolfgang von Goethe – ‘Os Sofrimentos do Jovem Werther” – escrita em 1774. Nela se baseou para escrever sua ópera “Werther”, considerando-a uma das experiências mais fascinantes de sua carreira. Chegou a declarar: “Em Werther coloquei toda minha alma”. Não deve ser por acaso que no pequeno recitativo que antecede a célebre ária  “Pourquoi me réveiller...” (3º ato), Werther canta: 

“ Traduire...Ah! bien souvent mon rêve s’ envola 
Sur l’ aile de ces vers, et c’ est toi, cher poête, 
Qui, bien plutôt, etait mon interprète!
Toute mon âme est là!    

Então, me indago: qual teria sido o tipo de voz de tenor pensada por Jules Massenet ao conceber e escrever a parte de Werther? Uma voz leve e lírica para combinar com a fragilidade do atormentado personagem ou uma voz de tenor mais encorpada para melhor traduzir a intensidade dramática do caminho de Werther ao suicídio? Não é de meu conhecimento que Massenet tenha declarado algo sobre isso. Dentre as belas interpretações de Werther que conheço, a de Kaufmann passa a ser a de que mais gosto. Toda sua alma estava ali e se expressava com vigor e beleza, através de sua voz de tenor spinto. Eis um Werther verdadeiramente arrebatador!

A escrita de Massenet para esse grande trágico da ópera que é o Werther aceita desde as vozes leves às essencialmente dramáticas. Dos tenores lírico-ligeiros (Tito Schipa, por exemplo) aos tenores heroicos, todos se acomodam bem na partitura de Massenet. No caso do “Werther”, para os tenores ocorre situação semelhante a enfrentada pelos sopranos em “Madame Butterfly”, de Puccini, papel compartilhado por sopranos líricos e dramáticos. A entrada de Werther é mansa e lírica, assim como a de Cio-Cio-San em Butterffly. São os únicos momentos em que esses personagens desventurados vislumbram o amor e uma possível felicidade, que está ali ao seu alcance. Mas já no final do primeiro ato essa felicidade se desfaz como uma nuvem e ambos os personagens crescem em vigor dramático, exigindo vozes mais robustas. Werther, no final de seu dueto de desamor com Charlotte cai em desespero; Cio-Cio-San olha a noite e sonha com as estrelas, enquanto Pinkerton tem pressa em iniciar já a noite de "amor" que será a última. 

Devo confessar que minha maior motivação para viajar a Nova York foi a de ver e ouvir o alemão Kaufmann de quem já sou fã desde que assisti a transmissão pelo cinema da matinê da Walquiria em 2011 (James Levine/Robert Lepage) em que ele cantou o papel de Siegmund. Sua poderosa voz moldada pelo sentimento conferiu imensa força aos sofrimentos do jovem Werther. E que beleza o contraste entre os agudos solidamente sustentados e os pianíssimos de verdade – não falsetes – que bem marcaram a cena final da morte de Werther.  

Kaufmann é mais que uma voz – seu desempenho teatral, elemento essencial à ópera, compõe a performance vocal com muita expressividade. No auge de sua carreira iniciada em 1997, conquista hoje a posição de uma voz única, como lembrou Henrique Marques Porto, invocando “Vozes Paralelas”, livro em que o tenor Giacomo Lauri-Volpi (1892-1979) analisa cantoras e cantores célebres aos pares nos respectivos registros, destacando as vozes por ele consideradas incomparáveis. Neste rol Lauri-Volpi teria colocado a voz de Jonas Kaufmann, ainda que emparelhada com a sua própria, já que vaidade não lhe faltava... Muito orgulho tenho de Kaufmann e sua voz rara pela diversidade do repertório já dominado, voz que ainda há de nos trazer muitas alegrias por ser ele ainda jovem. 

Kaufmann é pessoa afável, nada afetada, como testemunhei na tarde de autógrafos de seus DVDs e CDs, quinta-feira, 13/03, na loja do MET. Em dois minutos de prosa, fiz menção ao Rio de Janeiro como importante capital da ópera no passado. Kaufmann me afirmou que conhecia essa história. Indaguei sobre quando viria cantar para nós no Brasil e ele respondeu que pretende fazer uma turnê pela América Latina. Oxalá a administração do Theatro Municipal se interesse por isso!   

Aproveito a oportunidade para citar e lembrar o saudoso tenor Oscar Peixoto, falecido em 2012, que deixou neste blog um ótimo e esclarecedor artigo sobre a ópera “Werther” , o qual tomei como fonte de pesquisa para esta crítica. Sugiro que leiam: “Werther – o poeta e a morte por amor” (Aqui). Oscar amava esta ópera e ficaria encantado com a recente montagem do MET.  


Jonas Kaufmann fala sobre o "Werther"

domingo, 23 de outubro de 2011



WERTHER

O poeta e a morte por amor

Por Oscar Peixoto

(Publicado orinalmente em http://blogln.ning.com/profiles/blogs/werther-o-poeta-e-a-morte-por)

Jules Massenet

O Werther de Massenet (1842 - 1912) é baseado na novela popular de Johann Wolfgang von Goethe, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Die Leiden des jungen Werthers), escrita em 1774. Goethe escreveu a novela em quatro semanas, durante um arrebatamento repentino de inspiração, quando tinha apenas 24 anos. Embora Goethe já possuísse o reconhecimento público por seus versos líricos, ensaios e peças teatrais, foi “Os Sofrimentos do Jovem Werther” a obra que o impulsionou à fama internacional. Com sua novela, Goethe solidificou sua posição como líder do movimento romântico alemão conhecido como 'Sturm und Drang' ou “Tormenta e Paixão”.


A novela de Goethe é, em grande parte, autobiográfica, baseada em suas próprias experiências com o amor não correspondido. Goethe chegou a Wetzlar (lugar não mencionado onde é ambientada a novela), como um advogado de 22 anos. Mas o jovem escritor passava mais tempo lendo Homero e filosofando com amigos que trabalhando. Poucas semanas depois, conheceria Charlotte Buff, de apelido “Lotte”, em um baile em uma pequena aldeia vizinha. Ela se parecia muito com a Charlote retratada na novela e na ópera: uma moça tranquila e alegre que se havia encarregado de cuidar de seus nove irmãos e irmãs menores depois da morte trágica de sua mãe. Ele não sabia que Charlotte estava comprometida para casar com Johann Christian Kestner, um jovem admirável e bem sucedido. Apesar do duro golpe e da decepção, Goethe tornou-se amigo de Lotte y Kestner, passando um verão idílico –embora patético - com o casal. Mas apesar da dor que lhe causara o compromisso de Lotte, nunca teve mais do que palavras de admiração para com Kestner. Finalmente, quase ao fim do verão, Lotte disse a Goethe que não devia esperar nada dela, exceto sua amizade. O jovem escritor deixou o povoado em setembro, mas continuou correspondendo-se com o casal. Charlotte e Kestner casaram-se em abril do ano seguinte.

O suicídio de Werther foi inspirado pelo suicídio verídico de Karl Wilheim Jerusalem, um conhecido tanto de Goethe como de Kestner. Tal como o Werther do livro, Jerusalem era um pintor taciturno que apreciava grandes caminhadas solitárias. Era Jerusalem quem exibia o vestuário “ao estilo britânico” de Werther – casaco azul até os joelhos, colete de couro amarelo, calças de montaria e botas altas.

Diziam as más línguas do povoado que ele amava uma mulher casada que o havia rejeitado. Jerusalem havia enviado uma nota a Kestner, informando-o de que faria uma longa viagem e que necessitava suas pistolas emprestadas. Kestner, alheio ao fato de que Jerusalem planejava cometer suicídio, emprestou-lhe as pistolas. O criado de Jerusalem o encontrou morto na manhã seguinte. A notícia de sua morte causou forte impacto em Goethe; o escritor se identificava intensamente com o amor não correspondido e com o consequente desespero de Jerusalem.
“Os Sofrimentos do Jovem Werther” foi escrito como uma série de cartas de Werther a seu amigo Wilheim. Tais cartas descrevem, em sequência , os dezoito meses de amor enlouquecido e não correspondido de Werther por Lotte. Quando Werther se torna tão insensato, a ponto de não poder seguir trocando correspondência, Goethe assume o papel de editor e descreve os sentimentos íntimos do personagem à medida em que este se aprofunda num abismo em direção ao suicídio.

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Edição original
O livro influenciou grandemente o público. Por toda a Alemanha jovens começaram a imitar o estilo de vestir de Werther. Os românticos escreviam poemas inspirados na história; pinturas e litografias de Charlotte chorando na tumba de Werther tornaram-se comuns. Wetzlar começou a aparecer em guias turísticos que mostravam o túmulo de Jerusalem e outros pontos de referência mencionados no livro. Napoleão afirmava ter lido Werther sete vezes.

Apesar de não existir evidência, a lenda romântica conta que “Os Sofrimentos do Jovem Werther suscitou uma onda de suicídios através da Europa. A novela certamente era vista como perigosa pela censura em Leipzig ou na Dinamarca, onde foi proibida. Ainda que Goethe não se considerasse responsável pelo suposto aumento de suicídios, em uma edição posterior acrescentou um poema ao final do relato, no qual o fantasma de Werther sugeria ao leitor que não seguisse seu exemplo.
Massenet amava o livro de Goethe e afirmava que escrever “Werther” havia sido uma das experiências mais fascinantes de sua carreira. Chegou a declarar: “Em ‘Werther’ coloquei toda minha alma”. O compositor triunfou verdadeiramente ao captar a essência da obra prima da literatura alemã em uma ópera francesa – uma façanha excepcional.

Ainda assim, a ópera inclui algumas diferenças relevantes em relação à novela de Goethe. Por exemplo: na novela não está claro se Charlotte também ama Werther; na versão de Massenet, Charlotte sofre tanto quanto Werther. Na novela, Werther morre só, sem a oportunidade de voltar a ver sua amada; a ópera de Massenet contém um ato completo em que os amantes declaram seu amor recíproco momentos antes da morte de Werther. Massenet também desenvolveu o papel de Sophie, a radiante irmã de Charlotte.

Werther (tenor) é um jovem poeta, sensível e impressionável, de natureza fogosa. Na famosa ária 'Pourquoi me reveiller', recita un poema de Ossian (um poeta fictício), em um solilóquio próprio de uma alma atormentada e incompreendida a caminho da destruição.

Marcelo Alvarez/Elina Garanca - Werther - act III 

 

Jonas Kaufmann e Sophie Koch - "Pourquoi me reveiller?