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quinta-feira, 7 de março de 2013

Parsifal. O Evangelho Segundo Wagner.







por Henrique Marques Porto 



Parsifal é uma espécie de Evangelho Segundo Wagner. Reduzido, vá lá. A vinda do "inocente tolo" é uma profecia. Jesus, o Redentor, também era. O Nazareno foi concebido "sem pecado". Parsifal não conheceu seus pais. Herzeleide, mulher pura e sua mãe, morreu de tristeza. Seria a Virgem Maria de Wagner. O sofrido João Batista ficou sem a cabeça por anunciar a próxima chegada do filho de Deus. O agonizante Anfortas –enfim salvo pelo milagre da lança e por Parsifal- seria seu similar. O batismo por água corrente ou "consagrada", aliás, está presente no Parsifal. Kundry é também uma personificação de Herodiade, aquela que riu da cabeça decapitada de João Batista. Por isso está amaldiçoada. Seria Klingsor a versão wagneriana para Herodes? O da matança dos inocentes, as crianças, por natureza "tolas". 

Por outro lado, Jesus também pode ser visto como um "inocente puro" ou "tolo puro". Apenas tinha domínio da palavra, era bom orador. Fazia milagres. Parsifal também faz. Com um gesto simples, semelhante aos do Cristo, neutraliza o poder da lança "sagrada" e a toma de Klingsor, como quem pega um doce da mão de uma criança.  

Mas, no fundo, o Parsifal não trata de religião, misticismo ou sobrenaturalidade. Trata de cultura e da formação cultural da Alemanha e do mundo ocidental. A cultura alemã e sua formação eram obsessões de Wagner e estão também no centro dessa ópera.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Parsifal – “Gesamtjunsterke”. Obra de arte total, festiva e votiva.



René Pape, Jonas Kauffmann e Katarina Dalayman


por Ildefonso Côrtes

Semana que precede à estreia de Parsifal, em tempo real, Nova York, temporada 2013, Metropolitan Opera House, uns dos templos da ópera no mundo.


          Em casa, revivo cenas gravadas no Festival de Bayreuth, Siegfried Jerusalem, Parcifal. No templo wagneriano, na cidadezinha alemã de Bayreuth, o teatro construído pelo Rei Ludwig II, da Baviera para acolher, todos os anos, representações das óperas de Richard Wagner (1813-1883), de quem o monarca era admirador apaixonado e mecenas. 
 A encenação contava com Orchester und Chor der Bayreuther Festspiele regidos por Horst Stein e Norbert Balastch, respectivamente.


          Não sei se à época respeitava-se o desejo de Wagner de que os espectadores se abstivessem de aplausos entre primeiro, segundo e terceiro atos, a fim de não dissipar o clima de encantamento místico, o caráter de unção religiosa, que a música transcendente criava na audiência. (Continua)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Tecnologia muito "além" da arte? Rumo à Gravação Virtual (e outras considerações).




por André Vital

Adoro as enquetes tipo "obras e discos que você levaria para uma ilha deserta", simplesmente porque tenho a resposta na ponta da língua; as obras seriam o Parsifal e/ou ( se pudesse levar duas...) a "Arte da Fuga" do Mestre Bach.

No caso do Parsifal também tenho de pronto a resposta - Karajan DG, a sua primeira gravação digital feita (se bem que não a primeira a ser lançada) -a palavra e o conceito perfeição, bem como a sua realização, são provavelmente para uma realidade inefável,  mas se uma interpretação chegou perto, certamente foi esta!

Não estou falando das óbvias limitações e percalços que atingem 100% das gravações de ópera; tanto o tenor como a cantora que faz a Kundry são mais alvo de críticas do que louvores, e mesmo no caso dos outros solistas, sempre se pode reclamar de alguma coisa...a "Perfeição" a que me refiro está mais para aquele conceito euclidiano do todo ser maior que a soma das partes. Se se pudesse resumir em poucas palavras o fenômeno desta interpretação, seria com a expressão "mensuração áurea"!

Proporções e escolha de tempos, individualmente em cada momento e entre si, do menor micro ao maior macro do universo da obra final wagneriana; equilíbrio (quase) perfeito entre fusão e clareza individual de timbres e instrumentos, ou seja plasticidade e hedonismo numa perfeita aliança.