por Henrique Marques Porto
As
inaugurações dos teatros Colón de Buenos Aires, em 1908, Municipal do Rio de
Janeiro, em 1909, e Municipal de São Paulo, em 1911, estimularam e deram um
novo e grande impulso às excursões anuais à América do Sul de grandes
companhias líricas internacionais, lideradas pelos principais cantores e
maestros da época. Com três grandes teatros nas três principais cidades da
América do Sul, as empresas de Walter Mocchi, nascido em Torino em 1870 e falecido
no Rio de Janeiro em 1955, ganharam impulso. Mocchi era um conhecido militante
político, ligado ao partido socialista italiano, mas sempre manteve relações próximas
com a música. Em 1898 casou com a soprano Emma Carelli, e depois viria a se
casar com Bidu Sayão. Seus empreendimentos na América do Sul ganharam não apenas
viabilidade econômica, mas se tornaram um negócio altamente lucrativo.
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Walther Mocchi, em pé, com Mascagni |
Mochi
investia alto em suas aventuras no continente, cruzando o oceano atlântico em
longas viagens que duravam dois ou três meses. Além dos solistas e maestros,
trazia orquestra, coro, corpo de baile, cenários, figurinos e até os técnicos
para as montagens. Os espetáculos vinham completos principalmente da Itália. Os
teatros –mantidos pelos governos locais- eram alugados e os empresários, além
dos ganhos com a venda de ingressos, ainda recebiam dinheiro referente ao valor
dos contratos. Os cachês dos cantores eram baixos, na maioria dos casos, e o
lucro era certo. As mega-turnês de Mocchi se concentraram, então, no eixo
Rio-São Paulo-Buenos Aires, com eventuais esticadas ao Teatro Solis de
Montevideu e ao Real de Caracas.
Por duas
décadas Walter Mocchi dominaria o mercado da música "clássica" na
região, trazendo companhias de ópera, orquestras e solistas diversos, mas
com atenção especial para a ópera. Gino Marinuzzi, grande regente, também organizou muitas excursões, mas não com a frequência infalível de Walther
Mocchi.
Em 1930, o lucrativo negócio dos empresários sofreu duríssimo golpe. O prefeito
de Buenos Aires assinou decreto "nacionalizando" os espetáculos do
Colón (no caso, municipalizou, mas Buenos Aires tinha status de “província
autônoma”). O decreto tinha por objetivo principal estimular as produções
locais de ópera, mas também procurava atender às reclamações do público
portenho, insatisfeito com a predominância do repertório clássico italiano. Ao
contrário dos brasileiros, os argentinos queriam mais títulos de Richard
Wagner, Mozart e Richard Strauss no Colón, apesar de apreciarem com muita
paixão a ópera e os cantores italianos.
Para tanto,
o decreto criou os corpos estáveis do Colón (orquestra, coro e balé) e
endureceu as relações com os empresários. Sem o Colón, as empresas de Walther
Mocchi ficavam economicamente inviáveis. A sábia decisão de Buenos Aires se
refletiu imediatamente no Rio de Janeiro.
Em 1930, em
plena "época de ouro da ópera", o TMRJ apresentou apenas dois
espetáculos de ópera! Um deles financiado "pela
Sra. Getúlio Vargas" (Chaves Jr). Um total de apenas 109
apresentações. E nem tudo foi ópera. Num dos espetáculos foi apresentada uma
"pantomima", de Fernand Beisen (?) com música de Mário Costa (?), com
a participação de "alunos da escola de canto do maestro Salvatore
Ruberti" (Chaves Jr.), bailarinos etc. Devem ter sido espetáculos de
qualidade duvidosa.
Em 1931 há alguma
reação. Em setembro daquele ano o prefeito Adolfo Bergamini assinou
decreto repetindo em parte o que fez seu colega de Buenos Aires no ano anterior
-criou os corpos estáveis do TM e nomeou os maestros e empresários Silvio
Piergili e Salvatore Ruberti para organizá-los. Era o fim do reinado de Walther
Mocchi.
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Salvatore Ruberti, Beniaminio Gigli e Silvio Piergili |
Mas o
decreto do Rio, ao contrário daquele que beneficiara o Colón, não
"nacionalizou" nada, colocou dois empresários para organizar os
corpos estáveis e estimulou apenas timidamente as produções nacionais, numa
época em que já tínhamos alguns bons cantores. Carmem Gomes, Sylvio Vieira e
Reis e Silva eram os mais destacados. Ainda assim, o TM apresentou apenas sete
óperas, num total de 135 espetáculos. Mas trouxe ao Rio artistas importantes:
Carlo Galeffi, Lili Pons, Giusepina Cobelli, Ninon Valin e os tenores George
Thill e Galiano Masini. Com um detalhe que merece destaque: a
"importação" de 54 coristas da Sociedade Coral Argentina. É a tal
história, Decreto obriga, mas não cria um coro da noite para o dia. O
Ballet e a Escola de Dança do TMRJ já existiam extraoficialmente desde os anos
1920, sob o comando de Maria Olenewa, que também atuava no Teatro de Revista -formou,
inclusive, uma companhia própria com o cômico Pinto Filho. A Escola de Dança formava
não apenas bailarinos clássicos, mas também dançarinos para o teatro popular que
lotava todas as noites os muitos teatros da Praça Tiradentes e adjacências com burletas,
revistas e comédias musicais. O TMRJ, como se vê, ultrapassava os limites do
chamado “erudito” ou “clássico” e chegava até as camadas populares que pouco
iam ao grande e luxuoso teatro que apresentava óperas, concertos, balés e
teatro de prosa. O sonho de Artur
Azevedo, que não viveu para ver a inauguração do teatro pelo qual tanto
lutou, tornara-se realidade.

A temporada
organizada em 1931 por Piergili e Ruberti, italianos que amavam este país e adotaram
o Brasil como sua segunda pátria, aconteceu em novembro e início de dezembro
-sinal evidente de muito esforço e alguma improvisação. As temporadas internacionais
aconteciam aqui quase sempre em junho, julho e agosto, verão na Europa. Mas
Piergili e Ruberti conheciam profundamente o mercado internacional, tinham bons
contatos e agiam rápido e com argúcia. A imprensa da época registra que Silvio Piergili
conseguiu contratar Tito Schipa num navio ancorado em Santos, quando o tenor estava
em trânsito para Buenos Aires. Informado da presença de Schipa no porto de
Santos, Piergili deslocou-se rapidamente até lá e convenceu Schipa a cantar no
Rio. O contrato para quatro apresentações (dois recitais e duas óperas
encenadas) foi redigido e assinado numa mesa do bar do navio, num programa teatral que Piergili trazia no
bolso! Nas décadas seguintes, a ópera no Brasil se confundiria com o nome e a
presença desse maestro e empresário que veio ao Rio pela primeira vez em 1918.
Contudo, em
1932 o mercado internacional da ópera ainda estava incerto e voltamos ao fundo
do poço. Outras duas únicas óperas, ambas com elencos inteiramente nacionais em
110 espetáculos, segundo o livro de Chaves Jr. Aparece pela primeira vez o nome
do maestro italiano Jose Torre, um nome importante para a ópera do Rio e de São
Paulo, cidade que ele escolheu para morar com a esposa, a mezzo soprano
brasileira Julita Fonseca. Está claro que entre 1930 e 1932 não tínhamos
estrutura própria para montar uma temporada lírica com dez títulos ou mais,
ainda que tivéssemos alguns bons solistas. Por outro lado era enorme a
dependência do Theatro Municipal em relação ao poder público e ao então Governo
do Distrito Federal. Se o prefeito e os políticos estivessem de mau humor, nada
de ópera e concertos. A participação do setor privado era, como hoje, mínima,
reduzia-se à compra de frisas, camarotes, cadeiras cativas e assinaturas.
Mas a partir
de 1933 o Theatro Municipal consegue enfim se adaptar à nova realidade do
mercado e se recupera. É então que os Corpos Estáveis começam a exibir ao
público seus primeiros resultados e a sua importância. Neste ano, apesar de
alguns problemas, o TM ofereceu ao Rio uma ótima temporada, das melhores que o
velho theatro conheceu, com nomes do calibre de Claudia Muzio, Gilda Dalla
Rizza, Giacomo Lauri-Volpi, Ebe Stgnani, Carlo Galeffi, Beniaminio Gigli,
o baixo Giacomo Vaghi (que viria a se casar com a soprano brasileira
Maria de Sá Earp), entre outros. Tivemos "Norma" com Muzio e
Ebe Stgnani; Tosca, com Muzio, Alessandro Ziliani e Carlo Galeffi; Traviata,
com Gilda Dalla Rizza, Ziliani e Galeffi; e um Andrea Chénier com Gigli,
Muzio e Galeffi. Depoimento de quem testemunhou esta récita histórica afirma
que foi o maior Andrea Chénier já encenado no TM.
É em 1933
que chega ao Rio, vindo da Argentina, o maestro Santiago Guerra para assumir a
direção do Coro. O maestro Guerra -o Guerrinha, como era carinhosamente
chamado- permaneceria à frente do conjunto até 1975.
Como se pode
ver, a criação dos Corpos Estáveis do Theatro Municipal em setembro de 1931 não
decorreu de nenhum vício administrativo, empreguismo, corporativismo ou outra
motivação negativa. Sequer foi invenção nossa. A ideia foi copiada da Argentina
e tinha objetivos claros: 1) necessiadade de adaptação à nova realidade do
mercado mundial da ópera; e 2) estimular as produções locais e dar maior
autonomia ao Theatro Municipal.
De fato, com
orquestra, coro e balé próprios a ópera nacional se desenvolveu rapidamente e
em 1937 o Municipal organizou a sua primeira temporada lírica com elencos
inteiramente nacionais. Um nome merece destaque nesse verdadeiro salto de
qualidade: Gabriela Besanzoni. Desde o início da década de 30 Gabriela vinha
mantendo em sua mansão no Parque Lage cursos de canto, música e dramaturgia. De
lá saíram, até fins dos anos 40, alguns dos mais importantes nomes do canto
lírico nacional, como Violeta Coelho Neto de Freitas e Paulo Fortes, ambos
alunos de Gabriela Besanzoni. Ela própria assumiu a direção artística do
Theatro Municipal no biênio 1937/1938. Passamos a ter não uma, mas duas
temporadas líricas anuais: uma nacional e outra internacional. E assim seria até fins dos anos sessenta.
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Gabriela Besanzoni, figura dominante da cultura musical do Rio de Janeiro nos anos 1930 |
Mais adiante
foi criada a Escola de Canto do TM (hoje extinta), que formou solistas e mais
de uma geração de coristas, fomentando a produção artística local, mas sempre
valorizando o convívio com os artistas estrangeiros. Por mais de trinta anos a
Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal acostumou-se a ser conduzida por
grandes regentes em óperas e concertos. O resultado foi que nos anos 60 a
Orquestra do TMRJ era o melhor conjunto sinfônico do país, com músicos de
primeiríssima qualidade ocupando suas estantes. Só para lembrar, podem ser
citados Paulo Moura, Noel Devos e os violoncelistas Watson Clis, Peter Dauelsberg
e Eugem Ranevisky, entre muitos outros. O leitor pode imaginar o luxo que era
ver e ouvir, por exemplo, a introdução da ária “E lucevan le stelle”, da Tosca
de Puccini, executada pela clarineta de Paulo Moura –um som que quem escreve
ainda guarda nos ouvidos e na memória.
Os corpos
estáveis do Theatro Municipal foram fundamentais para o desenvolvimento da arte
lírica no Rio de Janeiro e mesmo em outros Estados. A existência da orquestra,
do coro e do balé viabilizaram diversas iniciativas independentes que promoviam
montagens de óperas que mesclavam cantores profissionais, iniciantes e artistas
amadores. Violeta Coelho Neto de Freitas, a grande soprano brasileira (para
muitos uma voz superior à de Bidu Sayão) estreou numa dessas empresas em
novembro de 1934, no Tijuca Tênis Clube, no bairro da Tijuca, na zona norte do
Rio. O tradicional clube tijucano organizou naquele ano uma temporada lírica
com quatro títulos: “Cavaleria
Rusticana”, “I Pagliacci”, “Barbeiro
de Sevilha” e uma grande produção, “Aida”.
Os espetáculos foram romanticamente ao ar livre, num bosque que existia ao lado
do Clube. No elenco nomes como os de Sylvio Vieira, Asdrubal Lima, o tenor
Machado Del Negri, o baixo Lisandro Sergenti ou o barítono Ernesto De Marco
–todos cantores profissionais- ao lado de estreantes e alguns amadores. À frente da empreitada estava um nome que quem
escreve conhece bem: o crítico Henrique Marques Porto, meu pai, que na época era também Diretor Social do Tijuca Tênis Clube. Incentivada por
ele, Violeta estreou na “Cavaleria
Rusticana” e em 1938 faria a sua estreia no Theatro Municipal, pelas mãos
de Gabriela Besanzoni, no papel que marcaria sua carreira, “Madame Butterfly”, ao lado de Antônio Salvarezza (tenor), Julita Fonseca (mezzo) e Sylvio Vieira. Ao se despedir dos palcos em 1959, Violeta
Coelho Neto de Freitas lembrou de sua estreia em 1934 e escreveu numa foto que
dedicou a Marques Porto: “Ao meu
descobridor o carinho e o agradecimento de...”
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Nota do jornal "Diário Carioca" de 11 de novembro de 1934 |
O ousado empreendimento de 1934 do Tijuca
Tênis Clube, que não foi único, e tampouco isolado, só foi viável porque o
Theatro Municipal cedeu a orquestra, o coro e o balé, além de parte dos
cenários e figurinos, maestros, encenadores e técnicos.
Hoje, os grupos de jovens cantores encenam
óperas de forma precária, com muito esforço, acompanhamento apenas de piano,
cenários e figurinos improvisados, em espetáculos muitas vezes arriscados que
podem comprometer o futuro de carreiras ainda nascentes. O que faz o TMRJ
diante disso? Nada. Fecha as portas, dá de ombros. Cego, não vê o futuro.
Paralisado, não consegue produzir cultura, recriar-se, transformar-se.
A atual crise de produção do Theatro
Municipal pode ser resolvida consultando a própria história do teatro. Mas é
preciso conhecer essa história e se debruçar sobre ela para identificar os caminhos
do presente e do futuro.
Os Corpos Estáveis do TMRJ não são um
problema, como alguns equivocados maldosamente afirmam. Muito ao contrário, são uma solução! Um caminho a seguir
é dar-lhes condições dignas de trabalho, meios para a dedicação integral à arte
e promover profissionalmente cada um de seus membros, sejam músicos, coristas
ou bailarinos. Essa é uma política cultural que não onera os cofres públicos,
ao contrário de alguns projetos milionários e ineficientes. Depende mais da boa
vontade, do compromisso sincero com a cultura, com a música, a ópera e o balé, e da inteligência e determinação
dos administradores públicos.
Fontes:
1) Edgar de Brito Chaves Junior, "Memórias e Glórias de um Teatro"
2) Arquivo pessoal do autor.