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"Carmem". Primeiro ato. Em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. |
por Comba
Marques Porto
Se tudo na vida tem limites, indago: quando
terão fim as transposições ou releituras de libretos de óperas por diretores de
cena e figurinistas para a locação da trama em tempos modernos, até mesmo quando
se trata de temas nada universais, como em Il Trovatore, de Verdi? É o que eu
chamo a “mania dos homens de terno” que já se torna lugar comum em encenações
de ópera pelo mundo afora, o que, aliás, vem despertando sonoras vaias, como
aconteceu com a Carmen de 2009 no Alla Scala de Milão.
Há, sem dúvida, honrosas exceções,
experiências bem sucedidas de aggiornamento
em encenações. Em lista que não se esgota, cito dois exemplos de acertos que
muito me tocaram: a Traviata da Netrebko em Salzburg/2005 e o Parsifal do Jonas
Kaufmann no MET/2013.
Violações
à integridade das obras
Não se trata, pois, de recusar
liminarmente tudo que se inventa. O problema, ao meu ver, reside no “como se
inventa”. Parto do princípio de que não é dado aos diretores de cena e
figurinistas o direito de violar a originalidade da obra feita de música,
libreto e notas sobre as ações e cenas. Não faz sentido a direção de cena querer
se sobrepor aos autores da obra ou recriar o libreto com o propósito de
atualizar a ópera ou torná-la mais palatável ao público, supondo-se que a mania
de colocar tudo ambientado nos séculos XX/XXI, com estranha fixação nos anos 40,
obedeça a tal propósito.
O pior é quando a coisa resulta
mambembe, feiosa e, especialmente, apartada da inteligência teatral inerente à
obra, como se deu na montagem da Carmen de Bizet/Meilhac/Halévy ora em cartaz
no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Dom
José de terno novo e a cigana de poucos feitiços
O Don José, da Carmen de Bizet (consta
que o de Merimée é um tanto diferente), apresenta-se como um soldado, um aldeão.
Na concepção de Allex Aguilera, ora comentada, o personagem entra em cena no 1º
ato com pinta e traje de um oficial nazista, nada a ver com o soldado que se
rende aos feitiços da cigana. Nesta montagem, o mesmo Don José aparece ao final
num terno de risca de giz, agora com pinta de político ou diretor de estatal
brasileira. O que significa isso?
Na cena do dueto final, tal como
consta do libreto, Don José ronda a praça e as amigas Frasquita e Mercedes
aconselham Carmen a tomar cuidado. Destas frases depreende-se que Don José esteja
visivelmente abalado, pronto para cometer um ato de loucura. Na montagem ora
apreciada, aparece-me um Don José em seu terno engomado, senta-se à mesa de um
bar para conversar com Carmen. Mesa de bar com direito a garçom e tudo! Ou
seja, a intensidade dramática do dueto em muito se perdeu. Não se construiu o necessário
andamento dramático que conduz ao desfecho.
A célebre "Habanera" do
1º ato é cantada por Carmen no segundo andar do cenário, ao canto esquerdo do
palco. Será que a escolha desta marcação se deve ao desejo de chamar atenção do
público para o cenário tal como inventado ou para “explicar” a sua finalidade?
No 1º ato, de acordo com o libreto,
Carmen entra em cena junto com as demais operárias da fábrica de cigarros, em intervalo
da jornada laboral. Não faz sentido ela cantar a Habanera encarapitada no alto
de uns andaimes. Aliás, o cenário
estruturado em andaimes ou plataformas de ferro interligadas por escadas carece
de significado cênico no contexto da obra.
No 4º ato as duas estruturas postas
respectivamente à direita e à esquerda do palco se acoplam para dar a ideia do
grande portal da arena fechado enquanto ocorre a tourada. Aí viu-se o palco excessivamente
às escuras. Foco apenas em Carmen que vem à cena trajada de socialite carioca
pronta para um baile no Copacabana Palace, num longo branco à rigor, com
direito à carteira de cetim, look anos 60. A iluminação restrita ao foco alcança
a tal mesa de bar que ambientará o embate final entre Carmen e Don José. Aliás, me pergunto o porquê de tantas
marcações paradas para o papel de Carmen nesta montagem? Sem movimento e
agilidade corporal a Carmen perde sua expressividade, diria a mezzo-soprano Gabriela
Bezanzoni (1888-1962), grande intérprete do papel.
Carmen
e a violência contra a mulher
Consta que Alex Aguilera teria
afirmado em entrevista que pretendeu com esta montagem chamar atenção para a
"violência contra a mulher". O libreto é óbvio e não precisaria de
realce quanto a tal ponto: Carmen é vítima, sim, de um ato de violência
praticado por Don José por não aceitá-la livre como ela é e enfaticamente se
declara. O paralelo entre a tourada real e a tourada metafórica resta evidente
na obra, como bem observou Henrique Marques Porto em sua crítica publicada no
blog Ópera Sempre.
O fato é que a proposição central
da obra vai bem além do tema da violência contra a mulher que está englobada na
abordagem do confronto maior entre a liberdade individual e as convenções sociais,
o sentido do amor, o que não se restringe à questão da fidelidade amorosa a
partir da ideia de apropriação da mulher pelo homem em nome do amor. Carmen não
ama a ninguém – si je t’aime, prends
gárde à toi” – se eu te escolho como objeto do meu amor, cuide-se!
Na obra Carmen simboliza uma liberdade instintiva, indomável. Ela é mais que uma mulher de carne e osso. A
Carmen é uma bela metáfora. Nada melhor, é claro, do que representá-la numa
personagem feminina singular e corajosa, como fizeram Bizet/Meilhac/Halévy –
uma mulher que intimida os homens e os tem sob seu domínio. Uma ideia de mulher
que, na história da ópera, faz um belo contraponto às sofredoras Leonoras
verdianas.
Ante à morte anunciada, Carmen
enfrenta Don José porque em verdade, encarna o desafio ao destino. Sua
liberdade interior afronta tudo, é maior que a própria morte.
“... Mais si tu doigt mourir, si le mot redoutable est écrit par le sort
recommence
vingt fois, la carte impitoyable répétera: la mort ...”
(Ária das Cartas)
Diante da insistência de Don José
Carmen “jamais ne cédera!” Libre elle est née et libre elle mourra!”
Escamilo
e a morte de Don José
Não li o romance do Merimée, não
sei qual é o fim lá previsto para o Don José. De todo modo, o correto é
considerar a obra de Bizet/Meilhac/Halévy e com base nesta posso afirmar que
não faz o menor sentido a última cena tal como concebida na montagem ora comentada,
em que Escamilo passa a navalha no pescoço de Don José. O que se quis dizer com
isso? Seria vingar a violência contra a mulher? Não creio porque isto não faz o
menor sentido.
No mais, a ideia de justiça com as
próprias mãos não é acolhida pelo movimento feminista. Não se quer o
justiçamento dos homens que matam mulheres por razões sentimentais nem por
razão alguma. Postula-se, sim, a prática de políticas públicas de educação para
a cidadania e, particularmente, a aplicação de medidas de prevenção e de punição
pelo Estado, visando-se coibir a violência contra a mulher.
O desastre cênico do 4º ato da
Carmen produzida pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi, de fato, além do
que se pudesse esperar com esse assassinato de Don José por Escamilo. Mais um
trabalho em que o essencial da obra é sacrificado como são os touros
sacrificados nas arenas espanholas. Quem perde com isso? Principalmente o
público jovem que busca a ópera e a encontra desfigurada de sua verdade
artística.