Madama Butterfly
O cenário de um amor inventado
por Comba Marques Porto
Madama Butterfly passou a ser uma das óperas mais encenadas em todo o mundo, desde quando
reapresentada depois da revisão feita pelo compositor, Giacomo Puccini, em razão da rejeição da obra na estreia em fevereiro
de 1904.
O libreto de Luigi Illica e Giuseppe
Giacosa, apurado na medida certa das rigorosas exigências do compositor, tem
como tema central a fidelidade de Cio Cio
San à sua paixão pelo oficial americano e à sua crença em que ele voltará
ao ninho de amor, mesmo depois de passados três anos de abandono. Nem Susuki, mais amiga do que serviçal, a
convence de que não há precedente de marido estrangeiro que tenha regressado.
Nada demove Butterfly. Nem o pedido
de casamento do rico Yamadori que chega
na hora certa para tirá-la da miséria.
Há quem despreze o libreto desta
ópera, baseado em obra do dramaturgo americano, David Belasco (1853-1931). Como inspiração literária, evidentemente,
não se equipara a um Otello, de
Verdi, assinado por Arrigo Boïto, baseado em obra homônima da Shakespeare. Mas,
Puccini e seus libretistas tiveram o mérito de ter colocado em foco uma
temática essencialmente feminina, com a qual levam o publico a se identificar e
mesmo a se envolver com a dignidade de Butterfly,
com a força de sua verdade, o que a torna um personagem profundo, aliás uma representação
ficcional de algo que acontece no coração das mulheres – um amor inventado para
chamar de seu, a fantasia de que este amor será para a eternidade.
O comportamento machista de Pinkerton, tal como delineado no
libreto, é outro ponto interessante. Enquanto Butterfly, do ponto de vista dramático, amadurece ao longo da
ópera, Pinkerton vai ficando com cara
de menino de treze anos, exposto à sua covardia, à sua vilania proclamada na
ária do terceiro ato: “Addio fiorito asil”.
Meu amigo Aloísio Teixeira, certa
vez, disse que Puccini apequena os papéis masculinos, ora retratando-os como
cafajestes (Pinkerton), ora os expondo
à própria fraqueza em relação às personagens femininas. Faz sentido. Tosca, por exemplo, com suas mãos sensíveis de artista, mata o temível
Chefe de Polícia romana, ato que, num plano de coerência, seria mais
provavelmente praticado por seu amado, Mario
Cavaradossi, em ação com os rebeldes republicanos. Rodolfo não encara o drama de Mimi
e disfarça sua covardia num ciúme estapafúrdio, puro artifício inconsciente
para não se deparar com a morte estampada na face de sua amada.
A encenação de Madama Butterfly não demanda mais que o espaço de um jardim, onde
se passa o 1º ato, e da pequena sala da casa onde o drama da gueixa Cio Cio San se desenvolve até o desfecho
trágico do harakiri. Porém, a casa de
Butterfly é mais que um elemento
cênico. É a metáfora de sua alma. É o espaço psicológico do abandono, da
miséria, da espera, da esperança de que Pinkerton
retorne. É o cenário de um amor inventado, da crença na palavra vã do oficial
americano que, com o auxílio do agente Goro,
promove a farsa do casamento com olhos no desfrute da jovem gueixa. Mais que um
exercício insensível de apropriação da mulher, a conduta de Pinkerton retrata a atitude imperialista
americana, a violação de valores culturais de um Japão devastado pela
fragilidade econômica. O Cônsul dos Estados Unidos, Charpless, adverte Pinkerton
de que a moça acredita na veracidade do casamento, mas não deixa de participar
da burletta.
Em 2009, Madama Butterfly foi incluída na temporada do MET. A soprano
americana Patricia Racette vive o papel-título com muita personalidade e
expressiva teatralidade. Mas, nesta montagem, as novidades ficam por conta da
concepção cenográfica (Michael Levine), dos figurinos (Han Feng) e da inserção
do teatro de fantoches (Blind Summit Theatre, Mark Down e Nick Barnes).
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O fantoche criado por Mark Down e Nick Barnes |
Da primeira vez que assisti o DVD fiquei
zangada. Não aprovei a concepção de representar o filho de Butterfly por um boneco com cara de japonês careca, quando consta textualmente
do libreto que o menino tem cabelos louros e olhos azuis. Recentemente, revi o
filme e, melhor refletindo, percebo que minha desaprovação, em verdade, deveu-se
mais ao fato de ter me sentido pessoalmente afrontada pelo fantoche do que
propriamente à questão da ruptura da encenação com a previsão do libreto para o
papel do filho da Butterfly.
Explico-me. Eu representei o filho da Madama
Butterfly em sucessivas temporadas líricas cariocas, entre 1948 e 1951 e
esta vivência artística me deixou marcas profundas. De lá vem, com certeza, o
meu amor pela ópera, não fosse também o vínculo de amor com meu pai projetado
no estímulo dele à minha cultura musical e ao gosto pela ópera. Uma experiência
que não deixou de ter seus riscos. Sempre me indago: como posso ter sobrevivido
do ponto de vista psicológico, tendo vivido inúmeras vezes a intensa cena da
despedida - “Tu, tu, piccolo iddio...”
- e tendo assistido o reiterado suicídio de “minha mãe”, ainda tão pequenina, quando,
por óbvio, não sabia separar o que era ficção do que era realidade?
Naquela época ainda não havia maior
preocupação com a exposição de crianças a situações traumáticas como a que se
vê na Madama Butterfly. Nas inúmeras montagens
de que participei no Theatro Municipal do Rio de Janeiro sempre estive presente
na cena que culmina no harakiri,
talvez uma das passagens mais carregadas de dramaticidade dentre as óperas de Puccini.
É bem verdade que havia a marcação para Butterfly
me vendar os olhos. Mas, na atenção de seguir a sequência no acompanhamento
exato dos compassos orquestrais, vez ou outra, sopranos não ajustavam a venda
em minha pequena face. Movida pela natural curiosidade infantil, eu espichava
os olhos e compartilhava da dor, do gesto extremo de Madama Butterfly.
O filho fantoche na encenação do MET/2009
parece uma solução politicamente mais adequada – nada de expor crianças a
evento emocional tão forte. Mas, não é só isso. O trabalho do Blind Summit Theatre chega ser comovente
pelo efeito teatral extraído com a manipulação do fantoche, êxito que poucas
crianças intérpretes do papel tenham obtido desde 1904 até hoje. No mais,
cenários, iluminação e figurinos belíssimos, concebidos na medida certa do que
é essencial à plena realização estética da obra.
Em verdade, a história de Madama Butterfly tem ênfase no que se
passa no coração da personagem-título. Afinal, o que mais existe além da
verdade de Butterfly, do seu obstinado
desejo de voltar ao clima da primeira noite de amor? Das óperas de Puccini, esta
talvez seja a que mais se destaque pela abordagem intimista, distanciando o
compositor do verismo presente talvez
em La Bohème ou mesmo em Il Tabarro e Suor Angelica. Um amor assim tão inventado quanto o de Butterfly desafia os pressupostos da realidade. Olhada a trama por este ângulo, representações alegóricas, tais como
as utilizadas na referida montagem do MET em 2009, não agridem o espírito da
obra. A licença poética, a inventividade de se levar o teatro de fantoches para
o teatro contido na ópera, a integração desta linguagem ao conjunto da
encenação e, sobretudo, o bom resultado estético obtido falam mais forte a quem
abre o coração para o deleite da ópera. A quebra da observância literal do
libreto perde importância.
Madame Butterfly - Final - Patricia Racette