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Nas fotos: Alma Cunha de Miranda, Reis e Silva, Sylvio Vieira, Asdrúbal Lima, José Perrota e Violeta Coelho Netto de Freitas. À direita, Gabriella Besanzoni. |
por Marcos Menescal
Pode-se dizer que até a década de 1930 não
havia a menor possibilidade de se empreender uma carreira lírica profissional
no Brasil.
Sair do país, iniciar uma carreira na
Europa e ser contratado por uma companhia que “fizesse a América do Sul” era,
praticamente, a única possibilidade de se cantar nos nossos dois mais
importantes teatros. Foi assim com Nícia Silva, com Zola Amaro, com Hedy
Iracema, com a grande Bidu Sayão.
Podia acontecer que um ou outro, dentre
os nossos melhores cantores, fosse requisitado para preencher alguma brecha nos
elencos da temporada, quando necessário. Eventualmente, alguém com influência política
ou com dinheiro suficiente, por diletantismo, bancava uma participação na
companhia internacional que estivesse nos visitando. Para dar um exemplo, em
1925, a “socialite” Bebê Lima Castro cantou a ‘Lucia di Lammermoor’ com
Mingheti, Viviani e Pasero, no Municipal do Rio, com êxito duvidoso.
O quadro começou a mudar no início da
década de 30, quando o Municipal do Rio levou à cena algumas óperas com os
estudantes da Escola de Canto do Teatro, em que participaram alguns nomes que
vieram a fazer carreira profissional nos anos subsequentes.
Em 1934 foi a vez da estreia brasileira
da ‘Maria Tudor’ de Carlos Gomes, esquecida desde a sua desastrosa estreia no
Scala de Milão, em 1879. Nessa ocasião cantaram Reis e Silva, Carmen Gomes,
Antonieta de Souza e Asdrúbal Lima, sob a regência de Mignone. Interessante é
que este ainda pouco experiente elenco cantou as primeiras récitas da ópera,
sendo depois substituído por grandes celebridades da época, como Gina Cigna,
Ebe Stignani, Victor Damiani e o maestro Panizza.
Mas a cartada definitiva foi dada por Gabriella
Besanzoni, o célebre mezzo soprano italiano, então retirada no seu suntuoso palacete
do Parque Lage.
Em 1937, a Besanzoni reuniu todos os
cantores brasileiros à disposição e montou a primeira grande temporada lírica
nacional, levando ao palco 17 óperas completas, com elencos variados, em que
despontavam os sopranos Violeta Coelho Netto de Freitas, Alzira Ribeiro, Thea
Vitulli, Abigail Parecis, Alma Cunha de Miranda, Ruth Valadares Corrêa, Alaíde
Briani, Carmen Gomes, Nanita Lutz, Heloisa de Albuquerque e Germana de Lucena; os
mezzo sopranos Julita Fonseca, Marion Matthaeus, Anita Fitipaldi e Ana Maria
Fiuza; os tenores Reis e Silva, Machado Del Negri, Marcel Class e Roberto Miranda;
os barítonos Asdrúbal Lima, Ernesto De Marco e Sylvio Vieira, e os baixos José
Perrota, Lisandro Sergenti e João Athos, entre muitos outros cantores.
Personagens principais foram
interpretados, em diferentes récitas, por até cinco diferentes cantores. Algumas
participações foram bastante inusitadas, como a da vedete
Margarida Max, em ‘Tosca’, ou a da cantora de música folclórica Dilú Melo, em
‘La Bohème’ (Musetta). A intenção, ao que parece, era dar o máximo de
oportunidades, e testar e revelar o maior número possível de cantores válidos.
O fato é que essa primeira experiência
alcançou um grande sucesso de público e, pelas décadas seguintes, prosseguiram
as temporadas nacionais, com absoluta regularidade, revelando grandes nomes de
saudosa memória como Diva Pieranti, Ida Miccolis, Assis Pacheco, Paulo Fortes e
tantos outros.
Acho que não seria exagerado afirmar que
devemos à iniciativa da grande Besanzoni o primeiro esforço no sentido da
possibilidade de uma verdadeira atividade artística, profissional e regular,
para os cantores líricos do Brasil.