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Temporada Internacional do Rio de Janeiro, setembro de 1949. Naquele ano o Municipal do Rio montou 43 óperas, em 261 espetáculos. |
por Comba Marques Porto
A ópera “Madama Butterfly”, de Puccini, entrou em minha vida quando fui
levada pelas mãos de meu pai ao elenco da temporada lírica do Theatro Municipal
do Rio de Janeiro, no ano de 1948. O meu papel não poderia ser outro: o do
filho sem nome da jovem gueixa (no libreto da estreia da ópera em 1904 o menino
foi chamado de Dolore) iludida por
Pinkerton, oficial americano, que lhe acena com um amor com direito a casamento
e casa no alto de uma colina em Nagazaki, para logo em seguida abandoná-la.
Não foram poucas as récitas em que fui ao palco representando este personagem,
muitas delas tendo como “mãe” Violeta Coelho Netto de Freitas, uma das melhores
sopranos brasileiras do século XX. Violeta fez história no papel de Cio Cio San, não só pela beleza e
intensidade dramática de sua voz, como também por ser uma cantora
particularmente dotada para a interpretação teatral. Jamais esquecerei da cena
do segundo ato com Violeta, quando Butterfly sofre o choque da pergunta de Sharpless, o cônsul americano: "Pois
bem, o que farias, Madame Butterfly, se ele (Pinkerton) jamais voltasse?". Esta é uma das passagens em que a escrita de Puccini mais se torna pungente, comovente,
assim como a cena final em que a gueixa despede-se do filho e pratica o arakiri.
O primeiro ato antecipa o drama de Butterfly.
Tem ao fim um lindo dueto que apresenta a protagonista, seu encanto com o falso
casamento e o suposto amor de Pinkerton.
Ela decide adotar a religião de seu marido e passa a chamar-se “senhora
Benjamim Franklin Pinkerton”. Todo o engano de que Butterfly é vítima ali se desenha. O segundo ato prende o público
pela emoção, ao concentrar a intensidade dramática da ópera: a realidade que Cio Cio San terá de enfrentar. São
passados três anos e ela está na miséria. Vive o abandono, mas acredita na verdade
de sua (inventada) relação com Pinkerton.
Curiosamente, muita gente que gosta de ópera em geral rejeita “Madama
Butterfly”. Ou, quem sabe, não a percebe musicalmente. A maioria talvez se fixe
no enredo - a gueixa que se deixa iludir, baseada na peça de John Luther Long e
David Belasco, na qual Puccini se baseou para criar a ópera com libreto de
Luigi Illica e Giuseppe Giacosa. Em verdade, musicalmente esta ópera é mais do que
a trama, conquanto o libreto seja muito bem escrito para expressar a verdade concebida
por Puccini a partir de uma historieta romântica, porém inegavelmente tocante.
Em “Madama Butterfly”, temos uma escrita musical de certo modo arrojada,
plena de silêncios no terceiro ato, a nos revelar um Puccini aberto a novos
sons igualmente experimentados em “Suor Angelica” (estreia no MET, em 1918, e
no Municipal em 1919). Muito me toca senti-lo como um compositor de fato
sensível ao drama íntimo da protagonista, a jovem enganada. Gosto dessa cumplicidade
de Puccini com Cio Cio San. No século
XIX, em que a ação se passa, isoladas revoltas contra a opressão da mulher
ainda caiam no vazio. Assim, é possível fazer uma leitura da “Madama Butterfly”
como denúncia de Puccini quanto à violação da dignidade da mulher, agravada pelo
fato de estar o americano Pinkerton
em missão oficial em terras japonesas, com sua diversidade cultural que ele desconsidera
e vê com ironia. Afinal, já chegáramos ao século XX e Puccini era um artista
com olhos para o futuro.
Perdi a conta das tantas vezes que me entreguei de corpo e alma a esta
ópera, seja como a pequena intérprete do Bimbo,
seja como quem não cansa de ouvir e assistir esta ópera. Há uma verdade em Cio Cio San que me comove. Minha amiga
Leda Fraguito muito bem observou: o que aparentemente nos incomodaria em
Butterfly - uma passividade cega que desafia o senso crítico das mulheres
conscientes da opressão feminina – é, em verdade, uma dignidade que apreciamos e
se manifesta por sua fé no amor, sua persistência, sua esperança de que o amor triunfe,
seja possível, tema caro a Puccini e, romantismo à parte, a todos nós que
acreditamos na verdade do amor como expressão humanista. É mesmo de comover a boa-fé
que Cio Cio San atribui aos homens
que a enganam, notadamente Pinkerton,
o estrangeiro vil e covarde; Sharpless,
o representante diplomático dos Estados Unidos que, no primeiro ato, desaprova
o malfeito de Pinkerton; no segundo ato comove-se com o drama de Butterfly; mas, no terceiro, articula o
resgate do filho, ao invés de denunciar Pinkerton,
para que o Estado mandasse pagar pensão à mulher e ao filho. Mas se fosse
assim, não haveria a ópera...
Neste ano de 2014, como em anteriores, não tivemos uma temporada de
óperas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Apenas montagens esparsas, como
a que acaba de ocorrer neste dezembro. Pois é: convida-se a soprano japonesa
Hiromi Omura para o papel título e se faz a descortesia de colocá-la em palco num
cenário mixa, mambembe, aquele inexplicável murundu ao fundo do palco, aliás,
um fundo muito escuro presente nos três atos a limitar o espaço cênico e
dramático. Cadê a noite estrelada do primeiro ato? Cadê a parte interna da casa
de Butterfly, onde o drama se desenvolve? Lamentavelmente, viu-se um cenário
que diminuiu o feito artístico de Puccini e seus libretistas.
A projeção
de vídeo na passagem orquestral do segundo para o terceiro ato, mais confunde
do que acrescenta. O recurso vem sendo bem usado em grandes montagens de óperas
no MET e em casas europeias. Mas é preciso cautela para não se sair a macaquear
o que se faz lá fora, quando aqui falta gestão para se ter o Municipal como um
verdadeiro teatro de ópera. A projeção, no caso, soou boba, deslocada do contexto
cenográfico, aliás, feioso e mal acabado. Se não há verba (será que não há?)
para montar boas temporadas de óperas, seria mais digno apresentá-las em forma
de concerto. Nem Puccini, um compositor que amava o teatro, nem o Municipal,
por sua rica história e, tampouco, nós, o publico pagante,
merecemos o que se viu.